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Falar da vida alheia pode ser muito perigoso e fatal

24 março 2015 - 12h00

Os monges do mosteiro, vez por outra, ficavam nervosos uns com os outros. Numas dessas confusões, Liu-Pei e um outro monge quase entraram em vias de fato. Mesmo passadas algumas semanas, o colega de Liu-Pei ainda estava triste pelo ocorrido; se sentia humilhado. Para Liu-Pei o incidente já estava superado, mas vendo o estado de espírito do companheiro, resolveu pedir ajuda ao sábio Kwan-Kun: "Mestre, por que ele continua triste comigo? No meu coração não guardo mágoa e nem rancor". O mestre respondeu: "Você deve compreender que quem leva a pior numa discussão ou briga não esquece facilmente. Apanhe uma folha de papel e amasse-a". Liu fez exatamente como o mestre pediu: "Agora desamasse-a para que fique como antes". O discípulo retrucou: "Mas eu não consigo, ela fica toda enrugada". E o sábio concluiu a mensagem: "Meu jovem, o coração de uma pessoa é como uma folha de papel, uma vez amassado, fica difícil reconstituí-lo". O amigo leitor já deve ter conhecido alguém que costuma fazer a seguinte colocação: "Sou muito verdadeiro, sincero e transparente. Tenho hábito de falar minha opinião na frente da pessoa e não pelas costas". O problema, é que sobre determinados assuntos ninguém pede opinião! Tecer comentários sobre vida alheia pode render sérios problemas e, principalmente, perda de amizades. O Marques de Maricá disse, certa vez, que "se fôssemos sinceros em dizer o que sentimos e pensamos uns dos outros, em declarar os motivos e fins das nossas ações, seríamos, reciprocamente, odiosos e não poderíamos viver em sociedade". Mas qual seria a dose certa ao usarmos a sinceridade? Pouca sinceridade pode ser perigoso, mas sinceridade extrema costuma ser extremamente fatal.

Jorge Lordello

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