As ideias surgem, se multiplica e se espalham pelo ar como bolas de sabão, se perdem na imensidão.
O cérebro parece não conseguir parar, dar trégua, mantem-se ativo, não se cansa...
O corpo exausto já não consegue se manter firme, os olhos cansados teimam em se fechar, mas o cérebro latejante pensa e o desperta...
Tem soluções para os problemas pessoais e do mundo, tem sonhos, divaga no presente, lembra o passado, planeja o futuro, parece que sua energia é infinita.
Reclamo em voz alta que preciso descansar, na vã tentativa de fazê-lo entender que no dia seguinte afazeres inúmeros me aguardam e careço de um corpo repousado...
Ah! Vã esperança de convencê-lo a me permitir dormir!
Olho para o relógio, mais de duas horas se passaram e já consegui desarrumar toda a cama, que agora me incomoda, lençóis, travesseiros em desordem me fazem levantar para arrumar o leito enquanto espero dessa forma convencer meu cérebro que é hora de repousar.
Tudo arrumado... Agora o corpo revoltado não quer deitar... Abro a janela, lá fora não está tudo mergulhado na escuridão, porque as lâmpadas no alto dos postes teimam em querer se assemelhar a claridade do dia, mas conseguem tão somente nos fazer vislumbrar os contornos dos telhados e das árvores, que agora balançam histéricas seus galhos por conta do vento forte e frio.
Um avião corta o céu, o som dos motores invade o espaço por longo tempo enquanto ele se afasta rumo ao seu destino longínquo... Imagino pessoas acomodadas nas poltronas, ansiosas para que logo chegue o final da viagem e possam curtir suas férias ou afazeres.
O meu cérebro fervilha de ideias e projetos... Férias!!! Hum... Vai ser bom viajar e lá está ele animado imaginando mil destinos.
Eu tento inutilmente "conversar", falar que está impossível viajar... A crise me impede... Ele ri dos meus argumentos e continua a sonhar...
Ah! Quero dormir... Pare de divagar, me deixe descansar!
Os cães latem, o vento açoita os galhos, os emissários colocados na varanda dançam alegremente ao som de seus penduricalhos...
A insônia mais uma vez me venceu.
O cérebro deve estar comemorando com ela enquanto escrevo, afinal conseguiram me manter acordada...
Outro avião passa seguindo seu destino, o apito do guarda noturno volta a se fazer ouvir mais próximo...
Volto à janela... Lá longe já posso perceber as pontas dos raios do sol que anunciam a chegada do novo dia.
Olho-me no espelho, lavo o rosto e penso que quando todos estiverem ativos o sono vai querer combinar o descanso com o cérebro...
Aí me vingo! Não vou deixa-los descansar...