Hoje, no último dia do ano, deste ano de 2016, voltei-me a lembranças. Claro, lembro com saudades boas de meu pai que se foi no 31 de dezembro de 1973, estando eu afastado do Brasil. E lembro também de outros bons natais passados.
Sempre tentei passar o Natal em família. Aprendi assim. Nos cinco Natais que passei fora do Brasil, tivemos, claro, alguma diferença. Não havia alternativa. Tão longe de casa, nada era simples. Mas buscávamos estar sempre juntos, mesmo na família de amigos queridos que lá fomos formando.
Sei que hoje existem diferenças. Há pessoas que estão perdendo esse hábito de reunir-se em família para se congregarem mais. Em vez disso, desapegando-se das suas próprias famílias de base, passam modelos para seus filhos repetirem seus exemplos e, no futuro, quem sabe ainda adolescentes, já desapegados das próprias famílias, passarem com amigos, em festas bem “alegres”. Natal, mais um feriado?
Aliás, esse evento, a tal nova festa “natalina”, tenho visto, está se tornando célere a nova marca. Vivenciei fora do Brasil, em destaque nos Estados Unidos, que os filhos saem da casa dos pais, casam-se e montam suas “famílias singulares”, sem avôs, sem irmãos, sem primos, desvinculam-se de suas origens básicas. Isso está se construindo no Brasil de hoje. É real, especialmente nas metrópoles. Perdidas as suas origens, não se pensa mais em se voltar para as suas bases, na tradicional formação cristã, com pais e irmãos e suas naturais vinculações.
E, de algum modo, esquece-se no Natal da lembrança marcante, determinante, do nascimento de Jesus. E as pessoas mostram-se mais e mais solitárias. E, ao envelhecerem, buscarão um asilo, não mais uma aproximação maior com os filhos, por exemplo. E ficarão mais solitárias, conformadamente solitárias.
Não me proponho a fazer críticas, prefiro dizer o que reconheço, a sociedade se transforma. Um amigo usou a expressão, para designar isso, “a sociedade se autodestrói”. Ou, sei lá, “se desagrega”... E, como sabemos, os membros de um grupo que não se juntam se separam. Talvez valha pensar.
Lembrei de um poema, escrito há muitos anos, creio, em 2005, “Natais”:
“passei Natais de presépio/ passei Natais pelo mar/ passei Natais com a família/ como já passei tão distante/ que nem imaginei que podia/ passei Natais tudo branco/ e passei Natais em fazenda/ mas passei também tão sozinho/ que jurei jamais passaria/ passei Natais tão felizes/ passei Natais tão alegres/ com muita música e amigos/ que aprendi a me contentar com o calmo/ sem precisar da euforia/ passei Natais precisando/ e passei Natais me doando/ esses foram os mais plenos/ Natais que passei/ experimente/ um Natal pode mudar todos/ os demais da sua vida”.