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Negras Nuvens

19 janeiro 2017 - 10h00

É paradoxal a conclusão de que, quanto mais advogados existem, menos os direitos individuais são respeitados, com o cotidiano abuso do poder pelo Estado. Mais contraditória é a conclusão: o crescimento exponencial do número de advogados será responsável pelo extermínio das garantias individuais no Brasil. Contudo, essas conclusões são, apenas, aparentes contradições e derivam, em verdade, de raciocínio lógico. Houve gigantesco aumento no número de faculdades de direito. Esse aumento em número não foi acompanhado pela manutenção da qualidade. Pelo contrário, se transformado em gráfico, o aumento de vagas vai refletir na diminuição da qualidade. Imaginem. Chegamos ao extremo do diretor que alerta aos seus professores: "não forcem muito nossos alunos, para que não desistam, vocês sabem que a maioria é de péssima qualidade". Alguém pode pensar que essa triste realidade não contaminará a advocacia, que a doença da mediocridade será isolada no bacharelado, que o exame da OAB nos salvará. Ledo engano. Também chegamos ao extremo dos professores de cursinho que ensinam com músicas infantis. O exame beneficia aquele que aprende boas técnicas de memorização, sem o devido prestígio ao raciocínio crítico. Contaminação! Dessa premissa deriva a conclusão. Apenas os melhores profissionais estão preparados para enfrentar o Estado. A situação é tão triste que muitos advogados aplaudem as iniciativas públicas para validação de provas ilícitas, tomada de delações premiadas de réus presos preventivamente, tortura de presos e etc. Advogados que se aventuram em defesas criminais e, nos bastidores, se referem aos próprios clientes como marginais. A intolerância deriva da falta de consciência crítica, que deriva da mediocridade, que deriva da falta de qualidade no ensino. Quando não é a intolerância é a submissão. As duas causam os mesmos prejuízos. Tantos advogados que não se levantam contra os arbítrios de um juiz, pois, temem pela sua falta de conhecimento frente ao magistrado.