Gosto dos versos de Paulinho da Viola em que o compositor diz: "as coisas estão no mundo só que eu preciso aprender".
Em políticas públicas o verso do compositor inspira observar as formas ainda não sistematizadas de resolução de problemas. E com este espírito, conheci a Central de Compostagem de resíduos orgânicos de São Paulo e a experiência inspiradora da iniciativa paulistana chamada Revolução dos Baldinhos, iniciada em Florianópolis, em 2008.
A Revolução dos Baldinhos surgiu para resolver um problema emergencial: surto de leptospirose contraída por seres humanos mordidos por ratos. O excesso de resíduos sólidos domésticos misturados depositados nas ruas, em sacolas plásticas, revirados e rasgados, atraíam os roedores.
Foi nesse contexto que um médico da Unidade Básica de Saúde do bairro de Monte Cristo, região do "continente" de Florianópolis, teve a iniciativa de apresentar o que já fazia em sua casa: separar os resíduos orgânicos dos resíduos "secos" em pequenos baldes e, em seguida, fazer a compostagem.
Junto a ele, o Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo - CEPAGRO - da Universidade Federal de Santa Catarina - iniciou um processo de assessorar a compostagem de resíduos sólidos orgânicos com apoio da Escola Básica Estadual América Dutra Machado e de um grupo de cinco famílias da comunidade.
O objetivo inicial da iniciativa era reduzir a quantidade dos resíduos sólidos apreciados pelos roedores. A estratégia era a compostagem descentralizada, a partir da separação dos referidos resíduos nas residências, sua deposição em Pontos de Entrega Voluntária (PEV) instalados entre 05 a 08 moradias, podendo ser "bombonas" instaladas nas frentes das casas ou junto a postes de luz, sempre sob a responsabilidade de um morador voluntário. Em seguida, essas "bombonas" eram recolhidas. Os resíduos eram, então, depositados em uma área, no interior da escola parceira, em leiras de compostagem.
No Brasil, aproximadamente metade dos resíduos sólidos domésticos é constituída de matéria orgânica, composta por aparas de grama, borra e filtro de café, cascas de frutas, ovos e verduras, folhas e podas de árvores, guardanapos e papéis toalhas, palitos de dente, serragem e sobra de comida.
No Brasil, como em todo país tropical, a unidade dos resíduos dificulta toda e qualquer tentativa de incineração dos resíduos. Daí a ideia dos incineradores muito propagada é mais uma ideia fora de lugar. Trata-se de ideia adequada para país subtropical e com baixa umidade do ar. Países como o Brasil, a separação dos resíduos orgânicos e sua compostagem de forma descentralizada é uma solução bastante oportuna.
A Revolução dos Baldinhos ultrapassou as fronteiras de Florianópolis e foi implantada em São Paulo, em 2015. Na ocasião o objetivo era fazer a compostagem de resíduos orgânicos de 26 feiras livres das 900 existentes.
Ainda há muito que ser feito. O prefeito de São Paulo teve a grandeza de se inspirar em uma boa experiência e adaptá-la à escala de seu município. Que outros prefeitos inspirem-se em boas experiências, de baixo custo, adaptadas ao ambiente e à escala locais.