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Saudade...

21 fevereiro 2017 - 12h00
Saudade...

Tempos atrás hoje o dia iria amanhecer vibrante para mim... Não. Não que a vibração tenha deixado de fazer parte de minha vida, continuo tendo muitos motivos para ser vibrante e feliz... Nesta data comemorava o aniversário de minha mãe. Hoje a festa seria pelos oitenta e cinco anos de uma vida sempre pronta a auxiliar os outros, de amor incondicional a família, aos filhos e à vida, as bênçãos de poder viver fazendo o que gostava (e gostava de tudo, o que não sabia procurava aprender, independente da idade que tinha). Foi durante muitos anos pai e mãe de filhos que ficaram muito cedo órfãos por conta da violência que já coabita entre nós há muitos anos. Lutou bravamente para formar todos e nunca deixou de elogiar cada conquista de seus filhos, por menores que fossem essas vitórias, incentivando assim sempre a superação. Ensinou respeito, ética, honestidade, como parte integrante da personalidade de cada um de nós... Gratidão, sinceridade, humildade, caridade e amor ao próximo foram coisas que nos ensinou cotidianamente. Qualquer hora que lá chegássemos tinha uma bolachinha, um docinho, uma bala puxa-puxa que ela acabara de fazer... Delícias de casa de mãe, que hoje fazem muita falta em minha vida e, com certeza na vida de minhas irmãs... Aos domingos era dia de reunir a família, o almoço simples tinha um sabor mais que especial, nesse dia todos podíamos conversar, trocar ideias, resolver os problemas que estivéssemos enfrentando, afinal um acabava ajudando o outro com soluções que por vezes nem havíamos sonhado. À tarde um café gostoso, quase um café colonial, tradicional na família dela que descendia de alemães, a mesa farta de coisinhas apetitosas, voltava a nos reunir à mesa alegres e falantes, enquanto ela paparicava os netos com presentinhos feitos por ela, pequenos mimos encantadores. Hoje todos sentimos muita falta dessa mulher especial, que se preocupava com cada um de nós de maneira diferenciada. Conhecia nossa individualidade e até mesmo ao telefone percebia nosso estado de espírito e estava sempre disponível para uma conversa e para dar um conselho com sabor de bolo de chocolate, sem interferir em nossa vida, sem nos posicionar contra o outro... Uma pessoa maravilhosa e iluminada. Saudade e um vazio que nada preenche é o que ficou com sua partida, após trinta dias de angústia e sofrimento, internada, à mercê da boa vontade (melhor dizendo da má vontade) de um plano de saúde, que entendia que uma pessoa de idade num hospital por conta de uma fratura, podia dispender tempo para aguardar as burocracias que eles implantam como medida de economia, apesar do alto custo para os usuários. Tantos dias longe do canto dos pássaros, da alegria do amanhecer acabaram esmorecendo aquela fortaleza que foi embora buscando nessa partida física o encontro da vida verdadeira e da felicidade ao lado daqueles que já haviam partido e recebendo os galardões de uma vida vivida intensamente.