terça-feira 29 de setembro de 2026 Logo Rede DS Comunicação

Assine o Jornal impresso + Digital por menos de R$ 34,90 por mês, no plano anual.

Ler Jornal Assine
Jornal Diário de Suzano
Envie seu vídeo (11) 4745-6900

As moedas sociais

08 março 2017 - 12h00
As moedas sociais

As moedas são essencialmente sociais. Não é possível uma sociedade instituir uma moeda que não seja fundada na crença social de que a moeda cumpra papéis tais como meio de troca, unidade de medida, e reserva de valor. É bem verdade que em muitas sociedades as moedas nem sempre cumpriram esses três papéis. O fato é que toda e qualquer moeda é fundada na confiança que a sociedade deposita no referido instrumento. É com base nessa crença e no acúmulo de experiência difusa no tempo e no espaço que muitos lugares, bairros e municípios, tem criado suas próprias moedas e as tem chamado de "moeda social", moeda alternativa, moeda complementar. No Brasil, há mais de 100 experiências dessa natureza, instituídas tanto pela sociedade civil como é o caso do "Palma" do Conjunto Palmeiras, em Fortaleza (CE) e do "Bem" instituído em Vitória (ES), quanto por governos locais como é o caso do "Cocal, em São João do Arraial (PI). A instituição de uma moeda alternativa local para a superação de crises econômicas nacionais não é recente. Ao ler dois pequenos artigos, um de Adir Tavares e outro de Alain Lemaitre, conheci a experiência da moeda social instituída em 1932, na cidade de Wörgl, de 4,3 mil habitantes, na Áustria. A experiência foi inspirada nos escritos no pensador anarquista Sílvio Gessell. Em plena crise econômica mundial, Unter, prefeito de Wörgl, propôs a criação de uma moeda local. Naquela ocasião, os recursos financeiros mal circulavam, as empresas fechavam e o desemprego grassava: o município tinha 1.500 desempregados, ou seja, aproximadamente 35% da população total. O argumento do prefeito apresentado à Câmara Municipal era o seguinte: "considerando que a principal causa das dificuldades econômicas é a baixa velocidade de circulação da moeda, como meio de troca", deve-se criar mecanismos para que as pessoas não procurem proteger o escasso dinheiro recebido em formas diversas de especulação financeira, mas realizem trocas e permitam a circulação de seus recursos financeiros". A Câmara Municipal de Wörgl, então, emitiu sua própria moeda com a mesma paridade da moeda nacional, sem a obrigatoriedade de seu uso pelos cidadãos, e com conversão imediata à moeda nacional pelo usuário interessado. O município, por sua vez, aceitava a moeda local como forma de pagamento de impostos. Só havia uma diferença com relação à moeda nacional: a moeda local expirava após um mês, a menos que ela fosse "renovada" por meio da compra de um selo no valor de 1% do valor nominal. Com essa medida, estava criado o estímulo para a circulação rápida da moeda. O município emitiu 32 mil unidades de moeda que circulou (trocou de mãos) 500 vezes em 14 meses, enquanto a moeda nacional circulava apenas 8,6 vezes. Além do aquecimento do comércio, da geração de emprego e dos serviços prestados e remunerados com a moeda local, com os tributos decorrentes da circulação da moeda a prefeitura construiu uma "ponte", asfaltou quatro estradas, renovou a rede de esgoto e de instalação elétrica, e inaugurou um trampolim para saltos de esqui. Apesar do sucesso, o Banco Central austríaco considerou que o município havia extrapolado suas competências. Mais uma experiência exitosa aniquilada pela burocracia. Restou literalmente a "ponte" que, construída naquela ocasião, tem até hoje a seguinte inscrição: "construída em 1933 com o dinheiro livre". Que essa iniciativa disseminada pelo mundo, inclusive no Brasil, sirva de inspiração para os gestores de políticas públicas. Que impere a capacidade de olhar para os problemas locais e a criatividade para a resolução dos problemas encontrados.

Leia Também