Fiquei pensando nas coisas lá de trás, do tempo de minha juventude. Sempre tive um certo encanto por mulher. Acho que sempre fui um seduzido. A mulher me envolve. Ela sempre foi, e será, minha poesia. Muitas vezes liam como se o meu poema dissesse que eu me dirigia às mulheres, a uma ou a todas as mulheres. E/ou, tantas vezes, tentava dialogar com os versos. Mesmo sabendo que a poesia, por vezes, podia me abandonar. Como umas mulheres me fizeram.
Nunca deixei de saber, como intitulei um poema meu, de “Poder Feminino” ou, como também o disse, “Ser Mulher Sempre”. Nesse poema, simples, resumia:
“o poder da mulher é/ ser o poder ser/ sempre/ aquele ser permanente/ que falta/
consente/ nega e afirma/ o que sente/ e mente/ sobre o que nem sente/ deveras/ ser que pode/ ser querendo/ tempo e rio/ ou não ser/ rua e vento/ vivendo/ agora e nunca/
o poder/ da mente/ mãos e olhos/ e coração/ poder de força/ sedução/ como quem chega/ quem vai/ não vem/ e nunca se esvai”.
Como não reconhecer, a mulher é poesia. Ou por outra, o poema não é outro senão a mulher.
A Vida nossa são recortes. Assim também chamei um poema, “Recortes”, em que, com certeza, teria voado por sobre a imaginação. Será que a imaginação é real? E por que não seria?
Senti que a mulher, ou a poesia, ou ambas, nos envolvem amplamente. E será que as palavras seguem além, muito além delas mesmo? Digam vocês?
“bela é a tarde/ na claridade em que você me chega/ estonteante em sua dança de brisa/ estes seus concêntricos recortes/ são vãs silhuetas são reflexos/
à luz dessa lua inexistente//
quieta/ só respire/ não se mexa//
deixe-me encantar/ a janela alumia/ transpassa-lhe o vestido/ meu sonho viaja além do vento/ ventre coxas pubescência/ vestígios das intangíveis colinas suas/ debruçadas serras/ colo sobre meu mar de anseios/ que mudo aspira chegar um dia/ recurvas ilusórias montanhas/ escarpas de poesia/ fronteiras desse pulsante oceano/ que as costas me banha/ criadas entre continentes desejos/ e paisagens de angustias minhas//
não se afaste/ fique aí/ tranquila//
imagino que sente/ meus inertes dedos/ oníricos perdidos dedos/ que acarinham silentes/ suas sinuosidades interditas/ imaginarias dunas onde deito/estas mãos esquecidas no caminho/ a ver o seu passar lânguido/ sedutoramente envolvente/ como intocáveis algas marinhas// estes seus não são seios/ volutas intumescentes/ lentas aos seu doce respiro/ são minhas ânsias arfantes/ meus solitários descaminhos//
peço mais um chope/ para saber compartilhar você/ com tantos outros olhares pela rua/ daquele mar de encantos/ nem sei mesmo se existe/ tão doce é imaginar//
o sonho é sempre e tanto/ alimento doce da luz/ calor imaginário das mãos/ perfume que a boca nem sempre traduz”.
Sei que a mulher é tão real quanto a poesia.