Há tempos se falava em qualidade de vida. Desde meados dos anos 2000, a expressão qualidade de vida passou a ser contraposta à expressão bem-viver, derivada do quéchua "sumak kawsay" e formalmente presente nas Cartas constitucionais do Equador (2008) e Bolívia (2009). No Equador, há também o Plano Nacional do Bem Viver, com metas quinquenais quantificáveis, mensuráveis e verificáveis (www.buenvivir.gob.ec/inicio).
A condição do bem-viver é uma procura de equilíbrio entre as dimensões culturais, ecológicas, econômicas, políticas, psíquicas e sociais. Nesta medida, bem-viver é interpretado como usufruto da via de forma saudável e harmonicamente integrada e interdependente com o entorno de onde se vive.
A ideia de bem-viver, portanto, está diretamente relacionada com a ideia de saúde, percebida não como ausência de doença, mas como bem definida no preâmbulo da Constituição da Organização Mundial da Saúde (OMS): "estado de completo bem-estar físico, mental e social".
Nessa medida, é importante refletir sobre a saúde de forma mais holística. Penso oito aspectos da saúde que não estão diretamente relacionados com as Unidades Básicas de Saúde ou com a saúde curativa. São eles:
1 - Saúde e Meio ambiente. Neste medida o meio ambiente em que se vive provavelmente afeta a saúde. Paulo Saldiva mostra em estudos diversos que morar em São Paulo acarreta redução do tempo de vida por causa do excesso de poluição. Nessa media, lutar pela redução do enxofre no diesel e pensar em alternativa para a mobilidade urbana dizem respeito diretamente à saúde. Morar próximo de indústrias que expelem gases tóxicos também deve trazer suas consequências, bem como morar em regiões sem saneamento básico ou com excesso de lixo e de ratos, por exemplo. Na direção contrária, a valorização de parques e áreas verdes seja para facilitar a prática de atividades físicas seja para contemplar o meio ambiente mais natural é uma forma de promover o bem-viver.
2 - Saúde e Trabalho. O ambiente de trabalho e as pressões cotidianas, tanto em termos mais micro, internos à organização; quanto em termos macro, relativos à conjuntura macroeconômica devem ser variáveis que afetam a saúde. Nessa medida, trabalhar sob pressão interna e sob a ameaça do desemprego e da carestia, provavelmente, impacta negativamente a saúde. Por outro lado, jornadas de trabalho mais brandas, ambiente interno de trabalho agradável, e contexto macroeconômico com expectativas de ampliação da renda e segurança na velhice devem impactar positivamente a saúde.
3 - Saúde e ritmo de vida. A correria do dia-a-dia, desde a hora em que se acorda até a hora em que se vai dormir, deixando de lado uma refeição adequada, um tempinho para conversar, cafezinhos, água e movimentos ao longo do dia podem impactar negativamente a saúde dos indivíduos.
Finalmente, cinco aspectos amplamente estudados e debatidos: cigarro; álcool; obesidade; nutrição e dieta; atividade física.
Em termos de políticas públicas, antes de inaugurar hospitais é fundamental compreender a inter-relação da saúde com as outras áreas de conhecimento e integrar as políticas públicas. É um bom início para refletir sobre a ideia do Bem-Viver.