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Vida e Morte de Dona Cida Gonçalves Pereira

07 abril 2017 - 12h00
Vida e Morte de Dona Cida Gonçalves Pereira

94 anos sem parar e sem perder o seu poder de esposa, mãe e avó. Sempre vivendo com o seu gênio forte, mas com ternura e bondade. Lutava e sonhava, superando muros, obstáculos, barreiras e tudo o que poderia impedir o crescimento da família e na formação dos filhos, netos e bisnetos. Dona Cida, falecida na madrugado do dia 2 de abril, era casada com Benedito de Souza Pereira. Teve sete filhos: Marisa, Marina, Telma, Benedito, Nestor, Charles e Noêmia (falecida), 17 netos e 16 bisnetos. Fui visitá-la no hospital e parecia que estivesse quase no fim da vida, mas voltou para casa. Sabia, porém, que as suas forças físicas estavam no limite. No entanto, não queria morrer sem antes ver a sua neta Patrícia que estava nos Estados Unidos. Com as lágrimas nos olhos a abraçou antes de morrer e irreversivelmente passou da obscura solidão da morte, para o festejo celeste dos Santos. Dona Cida amou com amor de mãe e acolheu para ficarem com ela, duas netas, Cristina e Fernanda, ainda adolescentes. Tinham perdido o pai e a mãe, (Paulo e Noêmia), num trágico acidente acontecido em Suzano, na década dos anos 80, na Rua Prudente de Moraes e lhes garantiu um belo futuro. Dona Cida, vinda do interior, se estabeleceu em 1963 com o marido no Jd. Imperador. Tornou-se a estrela da Rua Jose Garcia de Souza, pela sua maneira de socializar com os vizinhos, indo e vindo de um ponto ao outro da rua, para conversar com os moradores que não hesitavam em ficar fora do portão, pois não havia o medo que se tem hoje. Não obstante os alagamentos que aconteciam na rua, Dona Cida ficou naquela casa por 20 anos, deixando muita saudade aos que continuaram a residir no bairro e que tantas vezes tinham sido convidados a tomar um cafezinho na casa dela. Com a morte do marido, a nossa heroína foi morar na casa da filha Marisa, num sobrado um pouco distante do centro de Suzano, que não lhe permitia mais ter a liberdade de ficar fora do portão e conversar e chamar os vizinhos para tomar um cafezinho. A lembrança de Dona Cida é tão real na minha vida pelo fato de uma noite ter ido no prédio onde ela morava e toquei a campainha. Com grande susto e após ter ouvido a campainha tocar, sem perceber que era eu, gritou: “Vai embora não quero ninguém a esta hora em casa”. Depois que expliquei que eu era Padre e queria ver as duas meninas que tinham perdido os pais, me acolheu, rindo da sua gritaria, e sempre que ligava para as meninas era ela que atendia com sua voz poderosa e vigorosa. Suzano conheceu muitas pessoas que passaram dos 100 anos. Dona Cida estava vivendo a última década que a nós mortais é permitido viver, dos 90 aos 100 anos. A década dos 100 aos 110 anos é reservada pela natureza a poucos homens e mulheres. Entre eles está Dona Matilde que em agosto completa 107 anos. É a mulher mais velha de Suzano que vive como um passarinho. A natureza estendeu a mão para ela, empurrando-a a sobreviver não obstante a idade avançada. Que sorte!