Foi chegando de mansinho e tomando conta do portão da casa. Ali se instalou meio receoso, mas cheio de esperança.
Seu jeitinho meigo foi cativando os moradores da casa e da rua, parecia amistoso e carente, recebeu água, comida e por vezes um afago. Os pelos longos estavam encardidos e embolados, mas não cheirava mal.
Assim foram passando os dias, aninhado com certo conforto na cobertura do portão, livre da chuva e do sol de verão que aquecia inclemente, alimentado e com água fresca sempre, estava se sentindo seguro. Às vezes latia com veemência, talvez para mostrar aos moradores sua gratidão, cuidando da segurança do portão, muitas vezes o latido era indevido, quem os recebia era o carteiro, o leitor da água e da luz...
As brincadeiras da criançada da vizinhança tiveram que mudar, ele se apossava da bola e queria fazer parte do jogo, a bola só não era furada porque seus dentes eram compatíveis com seu porte pequeno.
Já sabia o horário de chegada de cada vizinho e, enquanto esperavam que o portão se abrisse, lá estava ele abanando a cauda, que se assemelhava a uma hélice, demonstrando a alegria por vê-los chegar e lógico receber um agrado de cada um deles.
Apesar dos esforços envidados, ninguém ainda se decidira a ficar com ele, ninguém o recolhera, continuava ali morando no portão e sendo alimentado, mas ainda morando na rua.
O portão era da minha casa, mas eu estava viajando... Quem o alimentava era minha filha, que apesar de querer adotá-lo não o fazia, com receio de nos desagradar, afinal não fazia muito tempo que havíamos perdido o último de nossos cães que já estava velhinho e não tinha mostrado interesse em ter outro animal de estimação em casa.
Quando voltei, o vi ali deitado na sombra, acompanhado da vasilha com comida e água, tal e qual a imagem que recebera pelo "zap" enviado por minha filha, que acompanhou a imagem com a frase "não é uma gracinha?".
Entretanto, ainda não me sentia preparada para receber outro bichinho em casa, o coração ainda doía por conta do sofrimento que vi estampado no olhar do último morador de pelos aqui de casa.
Mas, parece que São Francisco estava ao lado dele... No segundo dia após o retorno, a chuva de verão foi forte e de vento e, o portão estava sendo atacado pela água, atingindo o pequeno animal, que estava apavorado, tentando se esconder sem sucesso, pois, já estava todo molhado, quando decidi recolhe-lo, pelo menos durante a chuva...
Ele entrou ressabiado, me olhou meigamente como que agradecendo, enquanto eu o enxugava com uma toalha e tentava alinhar seus pelos, não abanava o rabinho, somente me olhava e procurava se aconchegar na toalha, como se assim se sentisse protegido.
E foi assim que acabou sendo recebido no interior da casa, ganhou o direito de morar na casinha que estava guardada e que ainda servia de triste recordação de seu último morador.
Tomou conta do espaço no quintal, no interior da casa e em nossos corações, fazendo gracinhas, trazendo a bola para brincarmos, olhando meigamente para ganhar afagos, banho e alimento... E é assim que hoje mora em casa, após nos adotar...