Em abril de 2016 a Assembleia Geral da ONU decidiu criar o Decênio de Ação sobre a Nutrição. Segundo Washington Novaes (OESP, 26/08/2016), "800 milhões de pessoas no mundo passam fome e mais de 2 bilhões sofrem com deficiência de nutrientes; 159 milhões de crianças com menos de 5 anos têm déficit no crescimento; 50 milhões estão abaixo do peso recomendável, enquanto na população geral 600 milhões são obesos.
Apesar da fome, a América Latina continua desperdiçando até 348 mil toneladas por dia de alimentos (FAO, 30/02). Cerca de 36 milhões de pessoas poderiam suprir suas necessidades diárias com o que é perdido nos pontos de venda direta ao consumidor.
Observar os dados gerais e manter os pés fincados em Suzano é um exercício que exige um olhar em perspectiva histórica que remete a 1993, quando o então vereador Paulo Caldas, preocupado com a questão do desperdício, apresentou um trabalho no Encontro Nacional de Vereadores em Serra Negra (SP), chamado "Desenvolvimento, sem desperdício, a partir da ação comunitária".
Naquela ocasião, escreveu o vereador: "da lavoura à cozinha, passando por todo o processo de produção, armazenamento e comercialização chegamos a perder até 40% dos produtos agrícolas. Ao chegar à dona de casa, o desperdício de alimentos continua, 20% são perdidos no consumo doméstico, segundo pesquisa do IBGE".
Em seguida, o vereador apresentou números e fatos sobre o desperdício em outros setores que não o alimentar, e o desperdício do uso dos fatores de produção como mão-de-obra (representada pelo desemprego), terra (representada pelos terrenos baldios a serviço da especulação imobiliária) e água. Finalmente, apresentou uma série de alternativas, tendo como base a articulação entre governo, sociedade civil e ação comunitária.
Na primeira década do século XXI, apesar da forte especulação imobiliária, da força das empreiteiras capazes de rapidamente transformar áreas agriculturáveis em empreendimentos imobiliários e da redução da quantidade de chácaras produtoras de hortifrutigranjeiros, Suzano experimentou uma política de Segurança Alimentar e Nutricional, tíbia e frágil, cuja principal marca simbólica foi o Restaurante Popular. Tratou-se de experiência fugaz. Atualmente o tema não tem visibilidade.
Apesar dos maus ventos sobre Suzano, há experiências não governamentais muito promissoras que podem inspirar ações em nosso município, como a Plataforma Sinergia, que surge a partir do reconhecimento de que a demanda por ações de combate à fome é tão intensa que dificilmente qualquer ação isolada seria suficiente para supri-la. A Plataforma sinaliza que para superar a fome é preciso sinergia entre as ações da comunidade, das empresas, de pessoas e dos governos.
Uma das ações da referida Plataforma é a produção da "farinata", farinha enriquecida capaz de suprir o corpo de uma série de nutrientes, com baixo custo de produção e distribuída gratuitamente.
É preciso recuperar nossa história recente e conectar criticamente as recomendações globais de combate à fome e as iniciativas inovadoras que acontecem no Brasil. Combater a fome e reduzir o desperdício ainda são temas atuais que demandam ações concretas.