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Caderno D

‘Coração de Cachorro’ une memórias de infância do presidente dos EUA

04 fevereiro 2016 - 07h00 Por Gabriely Machado
‘Coração de Cachorro’ une memórias de infância do presidente dos EUA

Há uma velha piada entre críticos sobre filmes com cães como personagens. Seriam obras para cinófilos ou para cinéfilos? A gracinha não se aplica a este “Coração de Cachorro”, da cineasta e multiartista Laurie Anderson. Certo. Há cachorro no título e também na obra - trata-se da cadelinha Lolabelle, de Laurie. Mas tudo vai muito além de enredos enternecidos sobre pets, que, diga-se, fazem o maior sucesso hoje em dia, já que os irracionais despertam mais simpatia que seres humanos. Acontece que Laurie, a pretexto de falar da cadela, fala, de fato, de perdas. E de morte. A obra é um sutil amálgama de lembranças, trechos de filmes antigos, desenhos e meditações sobre a vida, narradas pela própria autora. Aqui e ali, essas reflexões são temperadas pelo humor. Mas o tom predominante é um tanto aziago. Afinal, Laurie fala da infância, mas também do seu tempo contemporâneo. Tempo difícil, em especial nas transformações pelas quais passam os Estados Unidos após o 11 de setembro. Laurie testemunha como o país se torna controlador e insensível. Como, a pretexto de combater o terrorismo, os direitos individuais vão sendo ameaçados e a linha que separa o controle de atividades criminosas e a pura bisbilhotice se torna tênue. Esse é um dos aspectos. Outro, as memórias de infância, quando Laurie se recorda, por exemplo, de um acidente, junto com os irmãos, que caíram na água quando a superfície gelada de um lago se rompeu. Conta que os salvou e foi elogiada pela mãe. "Nunca me senti tão próxima a ela", diz. Fala, seguidamente, da doença da mãe e de como a acompanhou. Mas a piedade não a faz esquecer de todas as dificuldades de relacionamento. Laurie busca a emoção. Não deixa que a pieguice lhe embote o julgamento. E, sim, há a trajetória da cadela Lolabelle, uma fox terrier. O caso, para quem tem cachorro é que eles, em média, vivem muito menos que humanos. Crescem, envelhecem e morrem mais rápido. De modo que a certa altura, Lolabelle está velhinha e doente. E Laurie é aconselhada, pelo veterinário, a sacrificá-la. Mas decide que a cadela tem direito a viver a sua morte, o que não deixa de ser um ato de respeito e de dignidade muito humano. Esse painel multiforme proposto pelo filme será objeto do Cine Psique, no CineSesc (Rua Augusta, 2.075). O filme será exibido e, em seguida, haverá debate entre a pesquisadora de cinema Ilana Feldman e o psiquiatra Daniel Martins de Barros, mediado pelo crítico e cineasta Ricardo Calil. O tema é o cinema como criador de representações capazes de entender os distúrbios psíquicos.

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