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Jornal Diário de Suzano - 29/09/2020
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Cantora Karina Buhr evoca a figura da guerreira em novo disco autoral

04 OUT 2015 - 08h00

Existem significados diferentes para ‘selvática’. Ela pode remeter tanto a passagens da Bíblia, como também àquilo que se cria nas selvas. A cantora, compositora e escritora Karina Buhr queria tudo isso para o título - e para o conceito - de seu novo disco, “Selvática” (independente; R$ 20), o terceiro da carreira da artista baiana, que cresceu no Recife e vive em São Paulo há mais de dez anos. Desde a última terça-feira, o álbum está disponível para download gratuito no site oficial da cantora e em suas redes sociais.

"Eu estava relendo o Gênesis, porque piro na Bíblia como história, e as mulheres estão num lugar bem definido nela. Sempre que tem mulher envolvida, há uma situação esquisita, de tentação, de fraqueza, a não ser Maria, mãe de Jesus, que é virgem e com ela está tudo certo", conta Karina. "Tem a história da criação dos animais selváticos, que são os bichos escrotos, peçonhentos, e depois é criada a mulher. E comecei a estabelecer esse paralelo das mulheres selváticas, a pirar nessa coisa das guerreiras de todas as épocas, as da mitologia, as reais."

Karina Buhr tem o physique du rôle da guerreira contemporânea. E, assim como os índios que se pintam para ir à guerra, ela parece carregar na sombra colorida e no lápis preto em seus olhos para lutar pela música que quer fazer, e enfrentar polêmicas, como a censura, pelo Facebook, da capa de seu disco, em que aparece com os seios à mostra e as represálias de feministas mais radicais, que chiam do "maiôzinho" que ela usa nos shows e de seus requebrados no palco.

Ela tem estofo para chegar onde chegou. E, em Selvática, delineou um trabalho pungente, forte, tanto na poética quanto na sonoridade, com a assinatura de Bruno Buarque, MAU, André Lima e Victor Rice na produção - juntamente com a própria Karina, que não aparece como produtora na ficha técnica, mas sua mão e suas ideias estão ali. É um disco integralmente autoral, com alguns poucos parceiros, como Guizado, em Conta Gotas e Pic Nic. Nesses casos, o processo é o habitual: Karina Buhr já chega com letra e música prontas, e os parceiros colaboram nos arranjos.

A exceção ocorreu justamente com a faixa-título. A cantora conta que já havia escolhido o título do disco, mas não tinha uma música com esse nome. Karina, André Lima, Bruno Buarque e MAU, então, iniciaram, do zero, Selvática. "Só que foi passando o tempo, faltava uma semana para acabar o disco, e a gente gravando, gravando. E eu não parava para fazer a letra." Em cima da hora, ela ficou pronta. Karina chamou Denise Assunção e Elke Maravilha para colocarem suas "vozes selváticas" na canção. "Elas são musas da vida. Elke é desde que me entendo por gente, desde que ela era jurada do Chacrinha. Depois, passei a conhecer ela realmente quando fiz o show da Caixa Preta, de Itamar Assumpção (em 2010). Eu já a achava maravilhosa e passei a achar muito mais", descreve a cantora. "Denise também participou do show. Eu a conheci no Teatro Oficina, fizemos Bacantes juntas e foi uma coisa muito impressionante também."

No rock pesado de Selvática, o texto é recitado, com nuances vocais entre o agressivo e o gutural, à la Vincent Price. "Gravamos lendo, e a ideia era ser meio pregação." Selvática, a canção, fecha o disco, que, ao longo de sua audição, segue predominantemente nessa toada sonora mais contundente. Como Cerca de Prédio (parceria dela com Cannibal), numa levada punk, com apropriada participação da banda pernambucana Devotos, para protestar contra o crescimento imobiliário desordenado no Recife "Foi uma gravação para o programa Joinha Lab, do China, que chama uma dupla de músicos para fazer uma canção. Minha dupla foi o Cannibal (vocalista do Devotos). Gravamos lá ao vivo com Devotos tocando e Victor (Rice) remixou para o disco, para ter uma conversa com as outras canções”, finalizou

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