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Jornal Diário de Suzano - 26/11/2020
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Diretor Robert Wilson olha trajetória de Garrincha

20 ABR 2016 - 08h00

Foi curto o intervalo entre a glória máxima e a humilhação. Menos de 20 anos a separar a descoberta do gênio de seu ocaso. A história prodigiosa de Garrincha (1933-1983), o ‘anjo das pernas tortas’, serve de inspiração ao diretor norte-americano Robert Wilson em seu novo espetáculo, Garrincha - primeiro título com produção, tema e elenco brasileiros, parceria entre o Sesc-SP e o Change Performing Arts

"Fiquei fascinado pelo personagem, por suas contradições, por essa personalidade complexa, esse atleta tão vivo que destruiu a própria vida", comentou o encenador, que trabalhou durante dois anos no projeto, em entrevista.

Com estreia marcada para sábado, o espetáculo observa a trajetória desse anti-herói nacional, mas não como uma montagem de cunho biográfico faria. "Não estou fazendo um espetáculo que leve ao palco a vida dele. O que se verá não é algo que se possa descobrir em uma biblioteca. Olho como esse artista genial destruiu a sua vida, mas não faço isso de forma deprimente. Não pago para ver coisas que me deprimem", afirma o diretor.

Para se aproximar do desafortunado destino do craque do Botafogo, Wilson o olhou como um dos personagens das peças clássicas: "Os gregos escreveram sobre os deuses do seu tempo. Garrincha é como um deus de nossa época". E, para construir sua versão, buscou ressaltar os contrastes entre o que se vê e o que se conta. "Se estamos diante de uma história escura, é essencial que se traga luz e leveza para contá-la."

Como é comum em suas criações, o diretor valorizou em especial os aspectos formais e pictóricos. Compondo as cenas como se fossem ‘quadros’ e dando protagonismo a elementos que, geralmente, ocupam lugar secundário, como a luz e o movimento. No seu teatro, os corpos humanos se movem como figuras ‘fora do mundo’, totalmente estilizados. "O que se vê em cena não precisa ser mera decoração ou apenas uma ilustração do que se ouve", aponta o diretor.

A forma muito particular de Garrincha se movimentar entra, nesse sentido, como elemento de composição da obra. "Era um grande dançarino", considera Wilson. "Um bailarino como Fred Astaire, Baryshnikov ou Nureyev."

Esse balé esquisito, do homem de pernas arqueadas e dribles desconcertantes, já faria de Garrincha uma figura fascinante para o artista norte-americano. Mas há outro aspecto particularmente cativante. A diferença de seis centímetros entre uma perna e outra seria suficientes para impedir Mané de andar. Desajeitado, era um milagre que fosse capaz de jogar futebol. E ainda mais extraordinário que conseguisse, com passos que beiravam o impossível, criar tamanho deslumbre dentro de campo.

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