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Jornal Diário de Suzano - 25/02/2018

Fujima Kanjuro se apresenta pela primeira vez no Brasil no Sesc Pinheiros

14 AGO 2015 - 08h00

O Príncipe Nyo-sui e a Princesa-Fada Shira-Giku namoravam na utópica ilha Togenkyo quando, de repente, surge a monstruosa Aranha da Terra que rouba a espada do tesouro celestial. A partir daí, o príncipe fica cego e ambos partem em busca de ajuda. Orientados pelo velho sacerdote Shu-rou, a Fada se disfarça de viajante e encontra um homem caracterizado como Aranha de Pedra, fazendo-o beber saquê. Dessa maneira, ela consegue quebrar o feitiço lançado sobre o príncipe, recupera a espada e restaura a paz na Terra do Sol Nascente.

Tal aventura é contada por meio do canto, da dança e da representação, que dão forma e significado à palavra kabuki, teatro japonês com 400 anos de história. Um demonstração desta arte ganha o Sesc Pinheiros hoje, pelas mãos, corpo e vestes do coreógrafo Fujima Kanjuro. Ele é o responsável pela continuidade do estilo de sua família, que mantém a tradição há cerca de 16 gerações, ininterruptamente. Neto de Fujima Kanjuro IV, considerado Living National Treasure (Tesouro Vivo Nacional pelo governo japonês), o artista teve suas primeiras aulas com a mãe, Fujima Kanso III.

Com origem por volta do século 17, o kabuki tem inspiração na cerimônia religiosa nembotsu odori (dança de prece), pela bailarina Okini. Praticado integralmente por mulheres, a encenação passou a representar danças com movimentos sensuais, o que foi considerado ofensivo aos costumes da época. O shogunato, regime militar japonês, então vetou a presença feminina nos palcos, criando o onnagata - atores que interpretavam os papéis femininos. "Onnagata revela a beleza de ‘mulheres’ mais do que o real. Para isso, existe um grande desenvolvimento sobre a composição técnica, maquiagem, os trajes e os gestos", explicou também Kanjuro, em entrevista à reportagem.

Fujima abrirá o espetáculo com uma dança solo ritual. Sanba-so é oferecida aos espíritos, em um pedido de paz e prosperidade. Em seguida, sete bailarinos adentram o palco para contar a história da batalha contra o monstro aracnídeo.

Outra peculiaridade do kabuki são as cenas nas quais os atores fazem poses e ficam paralisados por algum tempo. Conhecido como mie, o objetivo é dar destaque aos sentimentos expressados, em cenas de grande destaque. Nesse instante, outro elemento, chamado koruko, se faz importante. Traduzido como ‘criança negra’, os korukos se vestem totalmente de preto e são parecidos com contrarregras. Eles são considerados invisíveis e incorpóreos. Suas funções são movimentar o cenário e objetos. No momento de uma pose mie, o koruko também pode segurar as vestes do ator, emoldurando o personagem e criando um efeito de escultura viva.

A música que acompanha o teatro é composta por instrumentos de percussão e o típico shamisen, similar a um violão mas com três cordas. Durante o evento, uma noite será reservada para um concerto com canções do repertório, executadas por 12 músicos liderados pelo maestro Nakamura Masaharu.

Legado

Durante a passagem de Kanjuro por São Paulo, o artista também mostrará o su-odori, a dança tradicional japonesa que teve origem no kabuki. Em um intenso diálogo com o teatro, a ‘dança plana’ substitui o figurino do kabuki por trajes mais simples. "O significado de su-odori é eliminar perucas ou trajes e mostrar a essência do personagem, sem distrações. Assim, em sua origem, não é puramente entretenimento, eu acredito, mas essa dança pode revelar o espírito do artista", explica.

Para o coreógrafo, o ensino de tais artes e estilos tem sido uma de suas inquietações. Kanjuro explica que a sobrevivência dessa arte se deve ao que os japoneses chamam de tradição kuden, a transmissão oral. "Honestamente falando, a coreografia kabuki e sua tradição não está conservada. Atualmente, nosso legado é transmitir informações oralmente e o método é mostrar os modos de se fazer e as maneiras de cada período. Isso ajuda a manter viva a luta e memória dos nossos antepassados", conta ainda.

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