Quatro mulheres denunciaram abusos sexuais atribuídos ao médico Rubens Sousa de Oliveira, de 63 anos, preso em flagrante após uma paciente relatar ter sido vítima durante atendimento no Hospital e Maternidade de Suzano (HMS), antiga Santa Casa, administrado pelo Instituto Nacional de Tecnologia e Saúde (INTS). Após a divulgação do caso, outras mulheres procuraram a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Suzano para registrar denúncias. O DS conversou com as quatro denunciantes, que relataram situações ocorridas durante consultas com o profissional.
Uma das vítimas, de 37 anos, relatou que procurou o HMS em 17 de agosto para tratar um caroço na região íntima. Ela estava acompanhada da filha, de 10 anos.
No primeiro momento, o médico apenas observou a região e pediu que ela se vestisse e aguardasse do lado de fora, pois atenderia outra pessoa. Na ocasião, uma enfermeira ainda estava na sala.
A mulher contou que, quando foi chamada novamente, a profissional de enfermagem já não estava no consultório. O médico teria pedido que ela tirasse a roupa e se deitasse na maca. Em seguida, fechou a porta e iniciou um exame na região íntima. "Ele colocou o dedo atrás, falou que ia ser um pouco desconfortável, porque ele ia examinar, e mandou levantar-se um pouco. Colocou a mão na parte da frente também e começou a fazer movimento no meu quadril", relatou.
A vítima contou que informou ao médico que sentia dor e desconforto, mas ele teria dito que a sensação era esperada durante o procedimento e que precisava examinar se havia algum problema na região anal.
Apesar de ter considerado inicialmente que o procedimento pudesse ser normal, a paciente afirmou que ficou incomodada com o atendimento e passou a pensar em denunciar o caso. No entanto, desistiu naquele momento por medo de não ser acreditada. A decisão mudou após uma amiga enviar a notícia sobre a prisão do profissional. Ao reconhecer o médico, decidiu relatar o episódio. "Eu conheço esse médico. Foi esse médico que me examinou também, me examinou desse mesmo jeito que a outra vítima falou", afirmou.
A mulher disse ainda que a filha presenciou o atendimento. Segundo ela, a menina permaneceu no consultório durante o exame, apesar do médico ter perguntado se a mãe não a deixaria do lado de fora. "Eu pedi até para minha menina: 'Olha para lá, não fica olhando não'. Só que ela não parava de olhar, ela não conseguia olhar para o lado", relatou.
Outra mulher registrou a denúncia na DDM de Suzano nesta sexta-feira (16), após tomar conhecimento da prisão. De acordo com o boletim de ocorrência, ela havia consultado o médico em 23 de setembro.
Segundo o relato de outra vítima, o médico pediu que o marido deixasse o consultório e, posteriormente, a enfermeira também saiu da sala. A mulher afirmou que, durante o atendimento, o profissional realizou toques em suas partes íntimas sem explicação ou consentimento.
Ainda conforme a denúncia, o médico teria pedido que ela se deitasse de bruços e tocado sua região íntima com os dedos, repetidas vezes.
A mulher relatou dor, desconforto e constrangimento. Ela afirmou que ficou em estado de choque e pediu que o marido retornasse quando a enfermeira entrou novamente na sala.
Após o atendimento, deixou o hospital abalada e não procurou a polícia naquele momento por receio de não ser acreditada.
Em conversa com o DS, ela explicou que a decisão de não denunciar imediatamente foi influenciada por uma experiência anterior que afirma ter vivido no Hospital Santa Marcelina, em Itaquera. Segundo a mulher, naquela ocasião, um médico teria tocado repetidamente seus seios. Ela contou que discutiu com o profissional e chamou os seguranças, mas nenhuma providência foi tomada e ela acabou retirada do local.
A mulher afirmou que o episódio trouxe de volta lembranças traumáticas e provocou intenso abalo emocional.
Outra vítima afirmou ter passado por dois atendimentos com o médico, em ocasiões diferentes, para tratar furúnculos na axila. Segundo o B.O., durante a primeira consulta, após retirar a lesão, o profissional teria dispensado o enfermeiro que o acompanhava, trancando a porta do consultório e começado a apalpar e acariciar os seios da vítima.
Ainda conforme o relato, o médico pediu que retirasse a calça e passou a tocar a região íntima, alegando procurar por mais lesões. Ele também teria apertado o mamilo da mulher e perguntado se ela havia perdido a sensibilidade após amamentar.
A vítima estranhou a situação, mas acreditou que os procedimentos fossem parte da conduta médica, por se tratar de um cirurgião. Ela retornou ao consultório em 6 de maio e, segundo o depoimento, o profissional repetiu o procedimento.
Em conversa com o DS, a mulher explicou que a notícia sobre a prisão foi determinante para que procurasse as autoridades. "Saber que outra pessoa tinha denunciado e que não era coisa da minha cabeça foi o que me motivou", afirmou.
A primeira denúncia foi feita por uma paciente que procurou o HMS com diagnóstico de pedra nos rins e foi encaminhada ao cirurgião devido à suspeita inicial de apendicite.
Na primeira consulta, ela relatou toques na região dos seios, mas acreditou que os contatos tivessem sido acidentais.
Em retorno na última quarta-feira (14), o médico pediu que ela se deitasse, fechou a porta do consultório, abaixou sua calça e tocou sua região íntima com movimentos circulares. O atendimento foi interrompido quando a enfermeira retornou à sala. Depois, a mulher buscou por ajuda no hospital, relatou o ocorrido à equipe e decidiu denunciar o caso.
Em conversa com o DS, a primeira denunciante afirmou que ainda está emocionalmente abalada com o episódio, mas se sente aliviada ao saber que outras mulheres decidiram relatar situações semelhantes.
"Me sinto aliviada, eu sabia que não era um caso isolado. Eu sabia que as vítimas iam aparecer", disse.
A mulher também destacou a importância de que outras pessoas conheçam seus direitos durante atendimentos médicos. Segundo ela, o desconforto inicial da primeira consulta fez com que acreditasse que o toque havia sido acidental, percepção que mudou após o segundo atendimento.
Após a divulgação do caso, outras mulheres procuraram a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Suzano para registrar denúncias - (Foto: Isabela Oliveira/DS)