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Eduardo Caldas

Fome teimosa!

02 março 2023 - 08h00 Por Gabriely Machado
Fome teimosa!


Findo o Carnaval, inicia-se a Quaresma. Gosto do Carnaval, do samba, das marchinhas, do frevo, dos bloquinhos, dessa "alegria fugaz", "ofegante epidemia" como diria Chico Buarque. Eu também gosto da Quaresma, da ideia do deserto como lugar metafórico da solidão, da reflexão, do pensamento profundo que orienta a ação.
No Brasil, o período da Quaresma inicia-se com o lançamento da Campanha da Fraternidade (CF) que, por sua vez, não se finda na Páscoa, mas estende-se pelo ano todo.
A CF é uma iniciativa da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) iniciada em 1964 e, desde então, ano-a-ano, propõe um tema a ser discutido por meio da metodologia ver-julgar-agir, ou seja, ver os dados e informações sobre determinada realidade social do Brasil, julgar à luz do Evangelho e propor um conjunto de ações individuais, comunitárias e reivindicatórias para junto de governos. Pela terceira vez, a CF tem a fome como tema central (1975, 1985 e 2023).
Não bastassem as CF, a fome já fora denunciada em 1946 pelo médico Josué de Castro que a reconheceu como um fenômeno político, decorrente da estrutura de renda (salário) e riqueza (propriedade de terra); fora combatida pelos Governos Montoro (em São Paulo em 1982-1986), Patrus Ananias e Célio de Castro (em Belo Horizonte em 1992-2000) e Lula (Governo Federal em 2002-2010); também fora enfrentada pela sociedade civil, especialmente pela Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e pela Vida (anos 90).
A reincidência do tema da Fome pela CF e o histórico de batalhas contra ela indicam que ainda há muito a ser feito do ponto de vista político para sua erradicação. O tema da fome denuncia a desigualdade em um país que a cada ano bate recordes de produção de milho, soja, trigo, cana-de-açúcar, carne, dentre outros produtos agropecuários. Segundo dados da Rede Penssan (https://pesquisassan.net.br), apesar de tanta produção agrícola, o Brasil comporta 125 milhões de famélicos.
O enfrentamento da fome é exigente: por um lado exige a garantia do direito humano à alimentação adequada; por outro, exige a garantia de terra, crédito, formação, apoio técnico, escoamento, condições de venda, preço mínimo.
No âmbito local, enfrentar a fome exige desde ações de solidariedade como a distribuição de alimento, cestas básicas, refeições para os mais pobres e necessitados; até políticas públicas de Estado com articulação de diversas secretarias municipais para:
" Revisar permanente o Plano Diretor para preservar a área rural, bem como as fontes e nascentes de água;
" Garantir boas condições de produção e escoamento do ponto de vista físico e logístico com segurança nas áreas rurais e estradas vicinais bem capeadas que permitam o transporte da produção;
" Apoiar a agricultura familiar do ponto de vista técnico, financeiro, creditício e burocrático;
" Incentivar o autoconsumo, a agricultura familiar, a infraestrutura verde;
" Valorizar os profissionais da alimentação, como merendeiras e nutricionistas;
" Criar e fortalecer conselhos de Segurança Alimentar e Nutricional e de acompanhamento do Programa Nacional de Alimentação Escolar;
" Criar canais de comercialização e fortalecer as feiras livres;
" Criar e expandir rede de restaurantes populares.
Enfim, não se trata de uma lista de medidas definitiva e exaustiva; também não trata das medidas para articular os vários níveis de governo; mas são itens que ajudam a olhar para os governantes locais de plantão e avaliar se estão enfrentando a fome teimosa e insistente e se ao fazerem esse enfrentamento merecem nosso apoio e nosso voto.