Estou acompanhando as enchentes no litoral norte do Estado de São Paulo e também no Alto Tietê. Não é possível falar em desastre ambiental. Trata-se antes de mais nada de um desastre político com impacto sobre a vida de muitos e a perda da vida de outros tantos, principalmente de pobres e remediados.
De acordo com o IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU) a intensidade de chuvas e secas será cada vez maior e caberá à humanidade, por um lado, reduzir a emissão de gases de efeito estufa (mitigação) e adaptar-se às novas condições (adaptação).
Então chuvas e secas que já ocorriam tanto em periodicidade esperada quanto fora de época e ocasionalmente com mudança de intensidade (variabilidade climática) tornando determinados territórios mais vulneráveis, agora ocorrem e ocorrerão com muita intensidade em decorrência das mudanças climáticas globais. Isso significa que eventos extremos como chuvas muito acima da média histórica tendem a se tornar mais frequentes.
Cabe, portanto, ao poder público adaptar os territórios sob suas autoridades para o enfrentamento dessas mudanças.
Não é suficiente a ação reativa do Poder Executivo em amparar as famílias enlutadas e desabrigadas. É emergencial adaptar as cidades para esses eventos extremos.
No caso de Suzano, a impressão é que o governo sensível no curto prazo, age na contramão de enfrentar efetivamente as causas que geram as enchentes no médio prazo. Digo impressão pois não tenho certeza. Eis abaixo um fato que me deixa duvidoso e ressabiado.
Quem sai de Suzano pela SP-066 em direção à Poá, na divisa dos dois municípios pode tomar a direção da Estrada Padre Eustáquio como quem quisesse voltar para a zona Norte de Suzano, no Miguel Badra. Essa estrada quando cruza o Rio Tietê passa a chamar-se Governador Mário Covas Júnior e tem a forma de duas arestas de um retângulo que circunscreve várzeas do Rio Tietê. Esse pedaço do município que limita Suzano, Poá e Itaquaquecetuba tem uma área de várzea muito bonita está sendo aterrado a olhos nus! O aterro da área é um insulto ao meio ambiente, aos ambientalistas e mesmo àqueles que estão sensibilizados com as enchentes que tem tirado muitas vidas humanas. Pari passu a esse aterro observa-se em outras paragens da cidade o asfaltamento de ruas que outrora eram cobertas com paralelepípedos. Trata-se nos dois casos de ações que reduzem a permeabilidade do solo e tem potencial de intensificar as enchentes. Estancar, paralisar essas obras, sim, são fundamentais como forma de combater as enchentes do futuro próximo.
É fundamental que o Poder Legislativo local promova o debate sobre formas de regular a ocupação do espaço urbano; que o Poder Executivo promova ações imediatas de adaptação e contenha sem pestanejar o avanço da cidade sobre as áreas de manancial, sobre as áreas inundáveis, sobre as várzeas de rios; que o Poder Judiciário embargue obras e ações que aterrem áreas verdes e alagadas; e que o Ministério Público em posse de tantos dados gerais e específicas acione o Poder Judiciário para que freie a ocupação das poucas áreas ainda inundáveis e permeáveis.
Podemos responsabilizar São Pedro, as chuvas, as forças da natureza. Mas se olharmos somente para essas possibilidades de responsáveis, sem mirarmos para o poder público com capacidade de ação como o Ministério Público e para os poderes Executivo, Judiciário e Legislativo não nos restará muita alternativa a não ser esperar as próximas tragédias.