Atualmente há cerca de 6% de analfabetos no Brasil. É muita gente sem condição de ler e escrever, de autonomia para pegar o ônibus ou o trem por impossibilidade de ler as placas. Por outro lado, há cem anos o Brasil tinha 70% de analfabetos. Então o Brasil melhorou mas ainda tem muito a ser feito.
O fato é que o Brasil nunca teve tantos leitores. E com o advento da tecnologia, dos telefones celulares, das redes sociais, passamos a ler o dia todo: são recados, muitas vezes cifrados, tamanha a quantidade de abreviações; bilhetes; frases curtas; e muitos desenhos.
Segundo a 5ª edição da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil divulgada em 2020 com dados de 2019, o Brasil tem 100 milhões de leitores, ou seja, 52% de sua população.
Para a pesquisa, é leitor quem leu, inteiro ou em partes, pelo menos 1 livro nos últimos 3 meses. Já o não leitor é aquele que declarou não ter lido sequer um livro nos últimos 3 meses, mesmo que tenha lido nos últimos 12 meses.
A todos os entrevistas, leitores e não leitores, quando perguntados o que gostam de fazer com o seu tempo livre, dentre as muitas respostas destaco: 67% assistem televisão, 66% usam a internet, 62% usam o aplicativo WhatsApp, 44% usam Facebook, Twitter ou Instagram, e 24% leem livros em papel ou digitais.
Recados, frases curtas e imagens lidas rapidamente, fundamentalmente nos aplicativos de redes sociais são "fluxos" de informação. Para o discernimento da informação recebida e sua análise crítica é importante que o leitor tenha um "estoque" de leitura prévia advindo dos livros de filosofia, história, literatura, dentre outros. Sem "estoque" de leitura tornamo-nos reféns dos emissores de informação. Com "estoque" de leitura, processamos criticamente a informação recebida.
Para incentivar a leitura é fundamental que exista uma política local de incentivo à leitura com a disponibilidade de livros ao alcance da mão por meio de pelo menos três ações:
- criação, adaptação e consolidação de espaços de leitura, dentre os quais bibliotecas, estantes de livros, salas de leitura;
- Promoção de ações para a formação de agentes de leitura (mediadores de leitura, multiplicadores de leitores) por meio de cursos, palestras, seminários e fóruns;
- Aprimoramento dos acervos públicos de livros por meio de sua catalogação, informatização, curadorias individuais e coletivas, gerais e específicas.
Em termos de incentivo pessoal à leitura, eu gosto dos 10 Direitos Imprescritíveis do Leitor, criado pelo professor e romancista francês Daniel Pennac:
Direito de não ler; direito de pular páginas; direito de não terminar um livro; direito de reler; direito de ler qualquer coisa; direito ao bovarismo (doença textualmente transmissível); direito de ler em qualquer lugar; direito de ler uma frase aqui e outra ali; direito de ler em voz alta; direito de calar.
Com políticas públicas de acesso, incentivo e promoção da leitura e os 10 Direitos Imprescritíveis do Leitor, criaremos um movimento sinérgico em que "fluxos" de informação e "estoques" de leitura serão complementares entre si.