Há quatro anos, Suzano ganhou visibilidade no noticiário nacional por causa do massacre na Escola Estadual Professor Raul Brasil em que foram mortos cinco estudantes, uma funcionária, uma professora, um ex-aluno, além do suicídio de um dos agressores. Na ocasião fiquei paralisado. Essa escola está diretamente relacionada com a minha infância. Meu avô foi o pedreiro responsável pela construção da escola. Lembro-me dele falando da quantidade de água que brotava naquelas terras. Suzano é várzea do Tietê, mesmo a região do Raul Brasil. Ele falava das estacas e das sapatas que sustentam o prédio. Falava dos pedreiros, alguns dos quais vindos de Minas Gerais assim como ele próprio. Depois, lembro-me acompanhá-lo em dia de eleição. Sua seção de votação era no Raul Brasil: cumprimentando amigos, antigos vizinhos, professores. Meu pai e minha mãe foram professores no Raul Brasil também. Acompanhei-os algumas vezes. O fato é que passados quatro anos do massacre nessa escola de Suzano, eis que outro município ganha destaque no noticiário nacional. Trata-se de um ataque à creche Bom Pastor, em Blumenau (SC), com a morte de quatro crianças. A impressão é que passado o calor da hora, a emoção, os gestos de solidariedade às vítimas e seus familiares, o assunto, pouco a pouco é esquecido pelas autoridades. Violência na escola, bullying, brigas entre alunos, ameaça a professores são preocupações antigas. Cada leitor é capaz de lembrar, pelo menos, dos apelidos e de algumas brigas escolares. A novidade é a conduta violenta e a proliferação de ameaças por meio das redes sociais que geram pânico.
Diante do fato, o governo Federal demonstra preocupação: instituiu, por meio do Decreto 11.469 (05/04/2023), o Grupo de Trabalho Interministerial para propor políticas de prevenção e enfrentamento da violência nas escolas composto por representantes dos ministérios da educação, justiça e segurança pública, Direitos Humanos e cidadania, comunicações, saúde, cultura, esporte, além da Secretaria Nacional de Juventude. O grupo tem 90 dias para produzir um relatório com propostas de ação para o enfrentamento da violência. A regulação de redes sociais parece algo importante a ser estudado e realizado. Além disso, a agenda não deve ser restrita ao "enfrentamento da violência". Certa vez perguntei ao professor Elie Ghanem da Faculdade de Educação da USP porque, geralmente, havia mais envolvimento das pessoas com as Unidades Básicas de Saúde que com as Escolas. Ele me disse: as Unidades Básicas de Saúde tratam da vida; nas Escolas, muitas vezes, tratamos de coisas da Escola deixando as coisas da vida do lado de fora, como se separar coisas de Escola e coisas da vida fosse possível. Outra vez, olhei uma escola muito bem cuidada na periferia de Ferraz de Vasconcelos e perguntei para o meu pai como era possível aquele cuidado. Ele, então supervisor de ensino, me disse que muitas escolas, apesar de todas as dificuldades, eram bem cuidadas e aquelas mais destacadas tinham um enorme envolvimento da Direção e do Conselho de Escola. Aquela Escola específica fez um mutirão de reforma e manutenção envolvendo toda a comunidade. A Diretora era uma líder comprometida com o bairro. Parece que esse tipo de ação gera mais cuidado com o espaço e maior vínculo de confiança entre as pessoas. Esses dois "causos" mostram a amplitude da agenda. Não se trata somente de "enfrentar a violência", mas também de promover a confiança. Talvez, um caminho seja estabelecer grupos de trabalho em cada município, envolvendo secretarias de educação, Direitos Humanos, comunicações, saúde, segurança, cultura, esporte, além da Polícia, dos conselhos, representantes de mães, pais e responsáveis para produzir conhecimento e ação, convidando especialistas e estudiosos, trocando experiências, compartilhando vivências que tratem não somente da violência nas escolas mas fundamentalmente da cultura da paz, da linguagem não violenta e que seja capaz de articular a vida na escola e a escola no cotidiano da vida. Assim, além de combater a violência (agenda reativa), produz-se também uma agenda positiva para a promoção da paz e da não violência.