A manutenção da boa saúde é, sem dúvida, responsabilidade individual; mas é também pública e coletiva. Assim, além dos cuidados individuais que tomamos para a manutenção da vida saudável, também é importante a organização comunitária e social para reivindicarmos e garantirmos do poder público cidades ambientalmente mais adequadas para a nossa saúde.
Em muitos lugares do mundo, os prefeitos estão atentos às ideias de "Saúde em todas as políticas" e "Cidades Saudáveis", ambas intensamente disseminadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Estas ideias vinculam a questão da saúde a pelo menos quatro áreas: transporte público; saneamento básico; produção urbana de alimento; e educação.
O transporte público é uma faceta da mobilidade urbana e substituto direto de outras formas de deslocamento. Nem sempre os espaços de morar estão próximos dos espaços de trabalhar. A moradia muitas vezes é uma conquista do cidadão em áreas distantes dos centros urbanos em decorrência da adequação de seus preços aos nossos parcos salários. Então decorre disso a necessidade de deslocamento para os centros de trabalho. Os sistemas de transporte são insuficientes e pouco confortáveis sem dizer que inseguros com relação à pontualidade, pouco acessíveis, desarticulados e caros. Assim, depois de suar para comprar a casa, sua-se para comprar o carro individual. Ganha-se "status social". Por outro lado, aumenta-se o stress, perdem-se horas de descanso, lazer e trabalho (nos congestionamentos), isola-se socialmente, reduzem-se as atividades físicas, aumenta-se risco de acidente, além de multiplicar a poluição sonora e do ar e emitir-se gazes de efeito estufa. A escolha, portanto, parece individual, mas é induzida pelas boas condições de aquisição e propaganda do transporte individual e pela insuficiência do transporte público.
A produção urbana de alimento, por sua vez, está diretamente relacionada com a agricultura urbana e periurbana (AUP) bem como com a agricultura familiar nas áreas rurais dos centros urbanos. A AUP não pretende substituir as formas convencionais de agricultura para o suprimento alimentar das cidades, e mesmo assim cumpre diferentes funções: oportunidades para atividades físicas e contemplativas, interação social, regulação do microclima local, aumento da superfície verde e permeável da cidade, descompressão do orçamento familiar, ocupação de áreas ociosas e aumento da vida útil dos aterros sanitários por causa do uso de compostagem de resíduos orgânicos. A agricultura familiar, por sua vez, está diretamente relacionada com a ocupação das franjas das cidades, e muitas vezes são vitimadas pela expansão urbana, com aumento das ilhas de calor e redução das áreas permeáveis.
O saneamento básico diz respeito à oferta/acesso à água segura para beber, preparar alimentos e higienizar-se, ao esgotamento sanitário, limpeza e drenagem urbanas, manejos de resíduos sólidos e de águas pluviais. A ausência de saneamento básico está diretamente vinculada a uma série de doenças do trato gastrointestinal com sérias consequências ao longo da vida.
A educação, por meio das redes de escolas públicas, é o espaço privilegiado para a promoção da saúde, das campanhas de vacinação, da articulação com os equipamentos de saúde, das discussões sobre as formas de ocupação do bairro, da mobilização social. Além dessas quatro áreas, a produção da cidade influencia fortemente a formação de ilhas de calor e a qualidade do ar, todas elas com impactos sobre a saúde humana.
Enfim, o funcionamento das cidades está diretamente relacionado com a nossa saúde. A interdisciplinaridade é um desafio constante. É urgente que gestores públicos rompam as caixinhas que separam saúde, educação, transporte, planejamento urbano, desenvolvimento econômico, saneamento básico e pensem a partir de projetos integrados. Eis uma chave para produzirmos saúde pública e coletiva.