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Eduardo Caldas

Reduzir a jornada de trabalho

08 junho 2023 - 08h00 Por Gabriely Machado
Reduzir a jornada de trabalho


Os empregos estão escassos e muitos dos existentes estão cada vez mais precários. Diante dessa realidade, o que fazer? Há duas propostas complementares: redução da jornada de trabalho sem a redução de salários; a introdução de um programa de renda mínima universal.
Essas são duas propostas foram apresentadas por Rutger Bregman no livro "Utopia para realistas". O interessante é sua construção argumentativa.
Sobre a renda básica universal, o autor mostra uma série de experiências em que distribuir dinheiro é "colocar óleo na engrenagem" e fazer a economia girar. Sobre a redução da jornada de trabalho, são descritas três histórias saborosas:
1. No primeiro caso, a proposta é de que a jornada de trabalho seja de 15 horas por semana. O autor recupera a história de Henry Ford, capitalista inveterado que descobriu que uma jornada de trabalho semanal mais curta aumentava a produtividade de seus empregados. Além disso, com mais tempo de lazer, há possibilidades de viajar, passear, e fazer a renda circular.
2. Em seguida, o autor lança mão também de uma historieta de W. K. Kellogg, o criador dos sucrilhos, que em plena depressão de 1930 decidiu introduzir jornadas de trabalho de seis horas em sua fábrica, em Michigan: "Kellogg conseguiu contratar 300 empregados a mais e reduzir de forma drástica a taxa de acidentes de trabalho em 41%. Além idsso, seus empregados se tornaram claramente mais produtivos". Segundo o próprio Kellogg contou: "o custo de produção por unidade baixou tanto que podemos pagar por seis horas diárias o mesmo que pagávamos antes por oito".
3. Uma terceira história arremata os argumentos em defesa da redução da jornada de trabalho. Em 1973, o primeiro-ministro britânico Edward Heath diante da escassez de energia foi obrigado a impor uma jornada de trabalho de três dias por semana. As empresas tinham permissão para usar uma quota equivalente a três dias de energia por semana. Quando a jornada de trabalho de cinco dias foi reintroduzida em 1974, observou-se uma perda de produção de apenas 6%.
A mensagem é a seguinte: é preciso que trabalhemos menos para que mais pessoas possam trabalhar.
Diante da percepção de que máquinas vão substituir parte substancial do trabalho humano, desde o final do século XIX há um debate sobre o que fazer com o tempo livre. Em 1932, o filósofo Bertrand Russell já alertava que a educação para o século XXI deveria preparar pessoas não apenas para o mercado de trabalho, mas também para a vida, para o cuidado, para o uso do tempo livre.
Desvincular trabalho e renda; pensar seriamente a renda básica universal; reduzir a jornada de trabalho; e discutir educação para a vida parecem itens fundamentais para a discussão econômica. As discussões sobre a reforma do Ensino Médio no Brasil do século XXI continuam pensando a educação como elemento para a empregabilidade do século XX e desconsidera a educação para a vida e para o cuidado.