Estava lá em casa mexendo no “Meu caderno de Anotações”, onde mantenho escrito poemas de muitos anos. Os mais recentes devem ter uns vinte e tantos anos de criação. E achei uma folha de papel com dois poemas que me pareceram bem especiais. Intensamente metafóricos. Bonitos! Permitam-me reconhecer.
Com intensa qualidade. São textos que aparentam ter um a certa e forte maturidade. Não era um jovenzinho. Tinha lá um seguro e forte equilíbrio. Esse poema tem algo entre uns quinze e vinte anos de idade de feitura.
Esta semana conversava com um amigo que me dizia que de há muito gosta de ler poemas. Mas, disse ele, talvez por algum bloqueio, não consegue, nunca conseguiu escrever um verso que fosse. Sempre soube, ou de há muito sei, que não é o escritor ou o poeta quem diz o que escreveu. Quem o diz, quem interpreta o texto é, sem sombra de dúvida, o leitor. E assim será feito com a capacidade pessoal do leitor, com os seus próprios recursos. E ele me dizia dessa fundamental necessidade da metáfora, especialmente, no verso. “Falar ou escrever uma coisa para dizer outra”. Exatamente.
O título era “Leva-me daqui”. Tal expressão permite tantas interpretações...
O texto de algum modo amplo do Poema é simples e expressivo. E em todos e com todos os seus versos não chega a ser longo, mas impactou-me. Metáfora forte. É como se a distância desses versos no tempo ligassem a outro ser, outra pessoa, que talvez eu já não seja mais. São apenas duas estrofes. Uma mais longa e outra bem breve.
Diz algo assim:
“você que chega toda vestida/ desse perfume diáfano/ iluminada e doce domina/ madura como o fruto dourado/ nesse seu jeito absoluto/ assim tão de repente brilha/ da luz fugidia que pelos poros me escapa/ surpreende-me ainda e sempre/ a cada novo momento/ feito fugaz lua pós-poente/ afasta-me o temor de estender as mãos/ quem sabe atingir suas fantasias/ tocar o que não me é dado pensar/ ou não me dou conta de nada/ escondida nesses olhos de tarde que acaba/ causando-me estranhas vertigens/ tal qual miúdas centelhas/ capazes de espalhar serpenteantes labaredas/ nas minhas plácidas paisagens/ você que me excita com novas descobertas/ de mim mesmo/ revela-me o adolescente/ que persiste em minha caminhada/ provoca-me sonhos/ que já nem sonhar sonhava/ em que me transforma os olhos insones/ nesses olhares bêbedos/ daquele que chega perdido/ depois do amor que a noite ardeu/ não me permita maior alarde/ você que me guia e protege intimida/ eu que já me vejo grisalho/ de tantas guerras antigas/ deixa-me prenhe de esperanças/ para perseguir essa tal jornada”//
“leva-me daqui/ dá-me a mão/ mais nada”.
Gostei. Não vou tentar interpretá-lo. Deixo aos meu leitores.
Perguntaram-me por que iniciava meus versos sempre com letra minúscula. É simples, tudo o que você diz agora, vem depois de muitas coisas já ditas antes. Não há como iniciar. É continuação. Vida.