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Suami Paula de Azevedo

Interpretando

30 maio 2020 - 02h59 Por Gabriely Machado
Interpretando
Indo ao Dicionário, vejo lá: "in.ter.pre.ta.ção: substantivo feminino. 1. Ato ou efeito de interpretar. 2. Modo de interpretar. 3. Tradução, versão. 4. Explicação. 5. Modo como atores desempenham os seus papéis". 
Na realidade, poderíamos acrescentar outros entendimentos, outras "interpretações". O fato é que há interpretações diferentes, por razões diversas. Há interpretações éticas e com falta de ética. Há leituras do mundo diferenciadas sobre o mesmo fato apresentado. Isso indica que se pode mudar a representação de um ato, de um fato, por meio de leituras múltiplas. Vale dizer, é possível mudar o significado original de um ato feito. Isso, como disse, pode ocorrer por boa-fé ou por má-fé.
Por isso também na vida comum isso pode acontecer provocando equívocos, erros ou mentiras, falsidades. Há quem se divirta com tal coisa, na vida comum. 
Por outro lado, fui pensando na minha vida literária. Em literatura a interpretação é imprescindível, faz parte, deve ser uma construção natural. A esta altura, já passei bem dos cinquenta anos da primeira publicação de poema meu, em um jornal no ano de 1965, em Porto Alegre, e quarenta e tal anos do primeiro livro. Dá até para responder algumas questões que tantos me fazem pelo caminho das letras. Na vida literária, na vida artística, essa coisa de "interpretação", justamente, é, ou deve ser, demonstrativo de criatividade. 
Não esqueço de Vinicius de Moraes. E, especialmente, dos seus sonetos, pois comecei minha poética com poemas de forma fixa. E por volta de 1963 eles impressionaram fortemente aquele menino que eu era na construção dos meus quase-sonetos. Antes disso, lia os Românticos, os Parnasianos. Mas para escrever fui a outros modelos. Isso é uma primeira interpretação. 
Segui adiante. E entrou o meu Mestre Quintana. Mas demorei muito para chegar aos poemas de forma livre, anos se passaram. E o vocabulário foi, muito lentamente, se tornando mais coloquial. E as metáforas foram sendo cada vez mais exigentes em significados. E os tempos de escrita e de leitura também foram se fazendo mais e mais diferenciados. Mesmo para quem fala dos próprios escritos isso me soa diverso, isso me soa como algo estranho, como se ao ver o meu trabalho com esse olhar de cima, ou de fora, estivesse vendo algo de um certo jeito de uma terceira pessoa. Outras interpretações.
Na vida comum isso pode passar a ser extremamente perigoso. Pode vir a se fazer mesmo um risco uma manifestação que pode levar as pessoas a erro de interpretação. 
Por exemplo, o primeiro curso universitário que fiz foi Direito. E não é que ali temos um amplo demonstrativo de interpretação. Para cada coisa da vida podemos ter duas interpretações, ao menos. Um entende como crime, o outro não. Um terceiro vai mostrar o que entendeu do debate. Eta vida estranha!
Nem vou falar da visão dos políticos. Aí passa para múltiplas interpretações, especialmente na nossa Terrinha. Um fala uma coisa, em defesa da Democracia, e outro fala outra coisa, também em defesa da Democracia. E assim vamos. Interprete como puder.