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Jornal Diário de Suzano - 29/09/2020
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Pmmc Sarampo
CENTRO MÉDICO CLUBE DS - TOPO

O que está lendo?

06 AGO 2016 - 08h00

suami-cor_Estava no trem, às vezes era mais fácil ir de trem do que dirigir até a universidade. Naquele tempo não havia nem a relativa importância dada aos idosos hoje. Gente mais velha ia em pé, enquanto jovens, vestidos de estudantes, sentavam com os pés nos bancos, ocupando espaços a mais. Para não ficar reclamando, me enrolei num dos suportes verticais, peguei meu livro e comecei a ler.

Lia quando uma voz de menina, com cara de universitária, num tom alegre, perguntou-me: "O que está lendo?" Já ia responder grosseiro, quando vi a garota sorrindo simpática.

Olhei-a, que completou: "Esse livro não tem capa de romance".

Surpreso, olhei a capa do livro. Nem havia reparado nisso.

Era mesmo, não tinha capa ilustrada com foto ou coisa parecida.

"É Antropologia", respondi. Ela nem deu espaço para uma breve pausa de silêncio, foi logo continuando seu questionário: "o senhor é professor?" Olhei para ela, sorrindo. "Sou", respondi em monossílabo.

E fui logo perguntando: "Por que?"Ela, sorridente, continuou: "No trem o pessoal só lê apostila ou se der romance. O senhor é diferente".

De fato, eu tinha, visivelmente, o dobro da idade dos passageiros. Um livro diverso, expunha-me ainda mais. Como não reconhecer, não tinha nem cara nem jeito de estudante.

Concordei com um gesto da cabeça.

Perguntei se ela observava todos os passageiros. Respondeu-me que sim. Disse-lhe que a ciência tratada no meu livro abordava exatamente o comportamento das pessoas nos diversos grupos sociais.

Não poupou-me. Continuou seu questionário. "O senhor acha que os estudantes leem pouco?"

Olhei para a menina, espantado por suas questões. Sacodi a cabeça, concordando com a resposta que já me oferecia na sua pergunta.

E lhe respondi expressamente com outra pergunta: "Você também acha isso?" Ela responde prontamente: "Isso mesmo!" E foi completando: "O pessoal não lê nada além de apostila. Com isso pode até responder certo nas provas, mas não se permite reflexões. Falta cultura geral".

Cheguei a minha estação. Desci. Não vi mais a menina no trem. Mas a vi numa outra universidade, na Sala dos Professores, anos depois. O sorriso era o mesmo. A cara de menina também. Tinha terminado o Mestrado em Psicologia. Já partiria para o Doutorado. Estava fazendo uma palestra sobre sua Dissertação, a "Formação em Cultural Geral do Brasileiro". Esses dias a vi na Televisão, dando uma entrevista.

Quem está na luta, não para, segue a luz que ilumina seu caminho. Isso me leva a continuar sentindo esperança. Podemos mesmo ter um mundo melhor.

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