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Jornal Diário de Suzano - 24/11/2017
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Podem os mortos falar?

17 JUN 2015 - 08h00

Há menos de um ano, experiência indiana sobre "autópsia verbal" ganhou espaço na mídia internacional. A mídia nacional não disse que iniciativa semelhante é praticada em Quixadá (CE) e em Pedras de Fogo (PB), desde os anos 90 do século passado.

A "autópsia verbal" é um instrumento de ação pública por meio do qual, nos dizeres de Veronika Paulics, "ouvem-se os mortos para garantir o futuro dos vivos".

Na Índia, 70% das 5 milhões de mortes anuais ocorrem em ambiente sem qualquer assistência médica. Então como e para que registrar os óbitos?

Um esforço para o referido registro é o estudo "Um Milhão de Mortes", levantamento que procura descobrir as causas de um milhão de mortes prematuras ocorridas entre 2001 e 2014 a partir de evidências fornecidas por familiares e cuidadores.

Segundo reportagem da Folha de São Paulo (03/06/2014), não é tarefa simples solicitar informações a estranhos sobre a morte de seus entes queridos. Mas é possível. E o que seria uma simples entrevista, torna-se uma conferência com participação de outros familiares e de vizinhos que se aproximam para ver, ouvir, prestar solidariedade e, muitas vezes, complementar as informações.

Depois da entrevista com perguntas detalhadas inclusive sobre dores nos mais diversos lugares, o formulário é enviado para dois médicos de um grupo de 300 que indicam de forma independente uma provável causa da morte. Se as avaliações dos dois médicos coincidem, a causa da morte torna-se oficial. Caso contrário, a palavra final cabe a um terceiro médico, mais experiente.

No caso brasileiro, a experiência de Pedras de Fogo (PB) tinha como foco entender e reduzir o alarmante índice de mortalidade infantil que em 1998 era de 128 mortes (menores de um ano) para cada mil crianças nascidas vivas, sendo que 72% eram por causa ignorada.

Por meio de entrevistas com membros das equipes de saúde e familiares dos mortos foi possível perceber que as mortes geralmente decorriam de uma combinação de ausência de alimentação da mãe e da criança, falta de acesso à água tratada, falta de atendimento adequado na hora do parto, falta de informação da mãe e falta de e/ou mau atendimento da mãe e da criança pelas equipes de saúde. Em posse do diagnóstico, foi estabelecido, dentre outras medidas, que cada gestante tivesse pelo menos seis atendimentos pré-natal ao longo da gestação.

Qual a contribuição desse tipo de "autópsia verbal" para o sistema de saúde pública? A principal contribuição é a realização de diagnósticos territoriais mais precisos sobre as causas das mortes e o redirecionamento de esforços para determinados tipos de prevenção e/ou tratamento de doenças. No caso indiano, resultados parciais do estudo "Um Milhão de Mortes" permitem estimar que o total de mortes por malária é duas vezes maior que as estimativas anteriores, e que o número de mortes por infecções vinculadas ao HIV é bem mais baixo que o previsto pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

No caso brasileiro, a mortalidade infantil em Pedras de Fogo foi reduzida de 128 mortes (menores de um ano) para cada mil nascidas vivas, em 1998; para 31 em 1999 e 23 em 2000.



Eduardo Caldas

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