Envie seu vídeo(11) 97569-1373
quinta 24 de setembro de 2020

Assine o Jornal impresso + Digital por menos de R$ 28 por mês, no plano anual.

Ler JornalAssine
Jornal Diário de Suzano - 24/09/2020
PMMC COVID SAÚDE
CENTRO MÉDICO CLUBE DS - TOPO
Pmmc Sarampo

Sobre homens e livros

12 JAN 2016 - 07h00

eduardo caldas corEm geral, as políticas públicas tem dois fluxos: um fluxo do Estado em direção ao cidadão e outro fluxo do cidadão em direção ao Estado. A questão é que, muitas vezes, o formulador da política pública acredita que criar determinado programa, projeto ou atividade é simplesmente organizar o fluxo de informações e ações do Estado em direção ao cidadão. No entanto, há que se reconhecer e organizar um outro fluxo também: o fluxo do cidadão em direção à referida política.

Os "micro mecanismos" de exclusão são enormes. É por isso que disponibilizar equipamentos de saúde, educação, cultura, dentre outros é importante, necessário, porém, insuficiente para garantir o acesso da população às políticas públicas.

Um programa de "desenvolvimento da leitura" por exemplo não é um programa de aquisição de acervo e tampouco um programa de disponibilidade de livros. O livro disponível no acervo é necessário mas não é suficiente para estimular a leitura e formar o leitor.

Em 2012, Charlene Kathlen de Lemos escreveu uma dissertação de Mestrado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo sobre as bibliotecas dos Centros Educacionais Unificados (CEUs), no município de São Paulo. Ela percebeu que a biblioteca não era propriamente um lugar de cultura erudita, silêncio e estudo como preconiza o imaginário popular. Na periferia de São Paulo, as bibliotecas devem promover a troca de ideias e saberes a partir da realidade local. Além do acervo, as bibliotecas são espaços de vivência e também de promoção e mediação de leitura, de oficinas de histórias, feiras do livro, oficinas de artesanato, cursos, debates, clubes de leitura. A biblioteca, portanto, como acervo de livros, não é suficiente para estimular a leitura. A biblioteca deve, antes de mais nada, inserir-se na vida das pessoas a partir da demanda delas. Em seguida, deve disponibilizar formas de mediação de leitura.

Como a vivência entre livros estimula a leitura e a curiosidade desde a infância, os programas de leitura devem ir além das bibliotecas e das escolas. David Dickinson, especialista em alfabetização pela Universidade de Harvard mostrou, em 2010, que crianças de três anos que possuem o hábito de leitura em família possuem, aos 10 anos, desempenho escolar superior às crianças que não tiveram a experiência da leitura em família.

A partir dessas notas sobre leitura, apreende-se que:

1 - As bibliotecas são necessárias, ainda que insuficientes. Portanto, devem ser espalhadas e incentivadas em suas formas estatais, públicas não estatais, privadas, coletivas, colaborativas;

2 - As bibliotecas devem ser espaços de mediação de leitura compreendida não apenas como leitura de livros e da palavra escrita, mas também de imagens, do entorno, da vida e do mundo. Por isso as bibliotecas devem ser acolhedoras e atender as demandas locais, servindo como espaço de reunião, reflexão e recreação;

3 - As políticas de leitura, que podem contemplar outros instrumentos além das bibliotecas, não estão restritas a uma determinada faixa etária, mas devem estender-se a toda família, desde a mais tenra idade.

Assim, completam-se os dois fluxos e será possível lançar as bases preconizadas por Monteiro Lobato para a construção do país. Como dissera o autor: um país se faz com homens e livros.

Últimas Notícias

Ver Últimas Notícias