Envie seu vídeo(11) 97569-1373
Sintonize nossa Rádio101.5 FMClique e ouça ao vivo
Quinta 23 de Novembro de 2017

Assine o Jornal impresso + Digital por menos de R$ 28 por mês, no plano anual.

Ler JornalAssine
Jornal Diário de Suzano - 23/11/2017
mrv

Uma Carta

01 AGO 2015 - 08h00

Recebi esta carta. Leiam com calma. É de uma estudante para os pais.

"Queridos pais, peço que antes de lerem esta carta vocês se sentem. Por favor, sentem-se, não continuem a ler antes de se sentarem.

"Quero lhes informar que agora já estou bem, que o traumatismo craniano que me vitimou já está praticamente curado. Isso porque fui obrigada a me atirar da janela do apartamento, quando ele pegou fogo e queimou tudo. Foi perda total. Felizmente caí sobre o toldo da oficina mecânica que fica no térreo do prédio. E fui socorrida por um jovem mecenico que trabalha lá. Inclusive, ele deixou que eu ficasse no quartinho que fica nos fundos da oficina. É pequeno, mas relativamente limpo. O rapaz é muito bom e me deu toda a atenção. E até descobrimos que estávamos apaixonados. Ainda ficarei mais algum tempo aqui, até que minha gravidez se torne muito aparente. Depois vou leva-lo para vocês conhece-lo. Até porque estamos pensando em morar um certo tempo com vocês. Pois ele só ganha um salariozinho pequeno, como o de um professor, e não podemos arcar com as despesas todas. Tenho certeza de que vocês vão gostar dele, apesar das diferenças raciais e de religião.

"Bem, meus pais, vocês podem relaxar. Nada disso aconteceu: não caí do prédio, não houve incêndio no apartamento, não namora ninguém e nem estou grávida.

"Na realidade, eu apenas tirei zero em Biologia na faculdade. E só não queria que vocês soubessem disso de uma maneira mais realista."

Bom, meus caros leitores, quando a gente pode escolher qual a notícia é a "menos pior", parece-me que a coisa ainda caminha. Ocorre que nem sempre temos essa escolha. Não vejo a menina irônica. Escreveu carta. Não estava presente para ver a reação dos pais, que, emocionalmente envolvidos, ao receberem a segunda notícia, soltariam toda a sua energia no ar, como uma explosão, com certeza. Mas ela lhes permitiu tempo, puderam amadurecer a tristeza de ver a filha reprovada pela demonstrada falta de estudos.

Enfim, acabei lembrando de uma outra carta, na antiga literatura brasileira, do rapaz que escreve aos pais sobre os cavalos que morreram na fazenda da família que ele tomava conta. Os pais telefonam imediatamente, por que morreram? Então ele responde, "de tanto carregarem água". Para quê?, perguntam os pais. "Para apagar o incêndio", diz ele. "Que incêndio?, retorna o pai. "O que pegou na fazenda e destruiu tudo, não sobrou nada", foi a resposta final.

A relação entre as pessoas é coisa tão especial, né não?



Suami Paula de Azevedo

Leia Também

Últimas Notícias

Ver Últimas Notícias