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Jornal Diário de Suzano - 05/12/2021
COLUNA

Gisleine Zarbiettis

é jornalista especialista em Educomunicação, autora do livro “Memórias de Suzano - história e fotos de todos os tempos, do vilarejo à cidade grande”; empreendedora e mãe

Uma vacina chamada amor

02 SET 2021 - 05h00

"No dia que for possível à mulher amar em sua força e não em sua fraqueza, não para fugir de si mesma, mas para de se encontrar, não para se renunciar, mas para se afirmar, nesse dia o amor tornar-se-á para ela, como para o homem, fonte de vida e não perigo mortal". 
Essa ideia de amor autêntico defendida pela filósofa existencialista Simone de Beauvoir, que significa não mentir para si mesmo, nos mostra que a gênese da violência doméstica, intrafamiliar e dos crimes de feminicídio está na incompreensão do amor que por isso se torna mal vivenciado e adoece as relações. 
Vivemos em uma sociedade que adora exaltar aqueles que se anulam por alguém, como se isso fosse prova de amor. Passamos muito mais tempo na vida tentando controlar o outro do que amando. Projetamos nossas dificuldades internas na relação a dois sem se dar conta que com isso alimentamos a ilusão de que o outro pode preencher o vazio. 
Essa busca existencial descrita por Simone de Beauvoir parte do sofrimento por não aceitar que esse amor doentio é na verdade uma falsa sensação de segurança advinda do medo de estar sozinho. É esse medo e não o amor que gera submissão e como consequência surgem as mais evidentes formas de discriminação, opressão e violência física ou psicológica que geram traumas. Por medo, apego ou vaidade nos afastamos de nós mesmos e vivemos apenas para agradar o outro, a família ou para manter um status. 
Os ressentimentos causados por desafinidades e feridas abertas encontram na arte um poder curativo transcendental. Grande catarse do inconsciente, a arte tem papel fundamental para acessar nossas emoções mais profundas, expor as sombras, mobilizar sentimentos, influenciar comportamentos e desconstruir crenças limitantes. É o caminho da busca existencial abordada por Beauvoir e da autorrealização da individuação defendida por Carl Jung em sua psicologia analítica. 
Ao curar feridas a arte desperta a consciência do real sentido do amor. Esse amor autêntico exposto por Beauvoir ensina que é preciso amar sem depender da pessoa para viver ou ser feliz. Para isso, o amor próprio deve vir em primeiro lugar e uma das formas de desenvolvê-lo é por meio da expressão da criatividade, que pode ser manifestada pelo desenho, pela escrita, pelo artesanato, pela música e qualquer outra forma de autocuidado. 
Não é o amor o que adoece e oprime, mas a falta de amor próprio. O autoamor é a vacina que nos imuniza de toda carga negativa e destrutiva da opressão patriarcal. Por isso, o autocuidado é essencial para que mulheres possam e saibam, acima de tudo, fazer escolhas. Ao se conhecer, se aceitar e se amar as feridas começam a ser curadas e as mulheres passam a ser mais felizes, amáveis e únicas.
Todo esse processo é intrínseco à experimentação do sofrimento. É no âmago da dor que o amor se manifesta. É num peito asfixiado de tanta angústia, amargura, ressentimentos e da opressão patriarcal que a arte tem o poder de se apropriar do vazio existencial, transmutar o ódio, curar a raiva e eliminar o medo. É preciso perder até a esperança para que o amor se instale. 
Se de um lado há o amor mal vivenciado ou distorcido de outro há quem adoeça por não ter a quem doar o seu amor. Despretensioso, o amor não gera dívidas e não impõe condições. Não há nada a retribuir só o que receber, pois sua única exigência é a entrega. 
PS: Dedico esse texto a minha filha, Lisa Marcolongo, que vive dizendo que o amor é a força mais poderosa do mundo e tanto me cobra para pautar o tema. 

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