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Jornal Diário de Suzano - 09/12/2021
COLUNA

Suami Paula de Azevedo

É escritor, responsável pela Mirambava Editora, palestrante e professor universitário. E-mail: suamiazevedo@uol.com.br

Ser Poeta é Poetar

23 OUT 2021 - 05h00

Essa semana tivemos, quarta-feira, 20 de Outubro, o Dia do Poeta. Sou Poeta, sinto orgulho disso fazer. Tem lá suas complicações, nem todo mundo entende. Como um jovem ligou para um amigo, professor faz anos, perguntando-lhe se poesia “não era coisa de mulher”? e ele perguntou ao jovem a razão da questão. “Porque mulher é que gosta disso”. Meu amigo perguntou-lhe mais uma vez, “você entende uma poesia depois de ler?” A resposta foi que achava muito complicado, “os poetas escreviam uma coisa que sempre parecia confuso, como se quisesse dizer outra”.
Bloqueios existem, claro. Explicar é difícil.
Aquela fala me lembrou de uma experiência, há muitos anos. Já escrevi sobre isso. Estava num Congresso de Educação. E fui pego de surpresa com uma homenagem. “Uma Professora de Literatura, que foi extremamente gentil, expos uma interpretação de poema meu. Todos olharam para mim. Senti-me sozinho naquele palco frente a multidão que lotava o imenso auditório. Disse, ainda pensando no que dizer, algo assim: “É, pode ser”. Acabei tendo de explicar o que tentei expressar no meu laconismo. E aí, claro, deixei de ser o Poeta para me posicionar também como Estudioso, como Crítico, como Professor, e comentei: “O Poeta não é obrigado a saber em totalidade o que el e disse. Ele deve saber o que pretendeu dizer. Mas será que ele sempre alcança dizer o que pretendeu? Quem tem de sentir isso é o leitor. Mas será que todo mundo lê igual e sente a mesma coisa?”.
Essa possibilidade de interpretações diversas me trouxe à cabeça uns versos do poeta cuiabano Manoel de Barros. Estava pensando numa daquelas invenções que ele trazia e continuou trazendo voraz por tempos. Algo assim:
“O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.”
As tais de metáforas, fundamentais em Poesia, podem nos levar talvez a chegar a um lugar nem sempre visível a céu aberto, onde pudéssemos,
“Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.”
Gente, eu mesmo, como Poeta, queria poder levar palavras novas ou com novos sentidos a quem nunca se emocionou com as palavras na loucura dos sonhos. Queria mudar as palavras, todos os termos, até que os homens entendessem que eles têm de encontrar sentido na vida juntos. Como já se poetou antes, queria trocar os significados das palavras, alterar os termos: “Talvez corrompê-los até a quimera.” (como me veio outro verso Manoel de Barros)
Quem sabe, até alterar os sonhos, torná-los tão grandes que só o coração humano pudesse contê-los. Queria que a Poesia entrasse pelos poros, levando música de perfume para todos os olhares. Queria que sempre fossem imensos e infantis os nossos encontros. Que encontros e espantos sempre fossem descobertas de mundo. Com aquela doce alegria que descubro no olhar das crianças, como e quando se ilumina o olhar de uma netinha.
A Poesia tinha de estar em todos nós, mesmo que nem saibamos da sua estranha melodia que nos move como se flanássemos.
Vamos saborear o que dizem os sentidos. Sem esquecer dos olhares, dos sorrisos do olhar. Que cheguem como sutis toques dos dedos.

 

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