"Então não mexam com os meus decotes", disse Sandra à médica e à mastologista que a atenderam em novembro do ano passado. Ela não suportava a ideia de que pudesse ter uma das mamas mutilada. A mesma já tinha passado pelo primeiro câncer anos antes, e este, agora, a deixava estranhamente tensa. Estava tão nervosa que o envelope pardo que segurava, contendo o laudo e as imagens da mamografia, esfarelou em suas mãos em questão de minutos. Sua insistência fez com que a médica prometesse que apenas o nódulo seria retirado.
"Sandra, Vestido e Salto Alto" é mais um documentário produzido pelo canal do YouTube “Os Outros”, uma produção independente de Douglas Cordeiro, Michael Silva e Rômulo Cabrera, no YouTube. O vídeo pode ser conferido no portal e no Facebook do DS.
Inspiração
Sandra Gonçalves, que serviu de inspiração para o documentário, é moradora de Suzano,. Fazia 48 em 24 horas. "Teve uma época, entre todas as minhas atividades, que eu tinha oito empregos" disse.
Formada em Letras pela Universidade de Mogi das Cruzes, a mesma atuou como professora do Estado entre 2005 e 2013. Além disso, dividia o tempo entre as salas de aula, o piano, as três filhas, Narany, Naliny e Nathaly e sua mãe.
A História
Em 2008, Sandra descobriu um "carocinho" no seio, mas só foi ao médico um ano depois. O diagnóstico era que "poderia ser leite empedrado", uma vez que o nódulo não tinha textura de tumor. Com insistência do médico, ela deixou de realizar os exames.
"Procurei outra profissional no posto de saúde do meu bairro e ela disse que 'era coisa da minha cabeça'. Dois anos depois, me consultei com outra profissional que disse que eu estava 'procurando doença'. Só que aí o nódulo já estava do tamanho de um limão, deformando meu seio, e eu aparentemente não conseguia que ninguém me ouvisse.", conta no documentário.
Após um exame preventivo de câncer de colo uterino, Sandra contou os recentes episódios para uma enfermeira que deu uma guia para que ela fizesse a mamografia e os resultados apontaram "achados mamográficos altamente suspeitos". Em fevereiro de 2014, o nódulo foi retirado da mama e as sessões de quimio e radioterapia deram início.
Em fevereiro de 2016, Sandra descobriu uma metástase óssea na coluna e começou a ingerir codeína, um fármaco preparado a partir da morfina, a cada seis horas.
No ano passado, começou um projeto de resgate da autoestima para pacientes com câncer: o "Namore-se". Ela e outras mulheres fizeram uma sessão de fotos, em setembro do ano passado, que foram expostas por dez dias no Suzano Shopping. Em dezembro do mesmo ano, ela descobriu um novo nódulo e foi internada para a retirada. "Saí de casa domingo, linda, maravilhosa e sorridente, como sempre. Mesmo voltando mutilada, sem um pedaço de mim, voltei da mesma forma: linda, maravilhosa e sorridente - e tentando achar algo de bom nessa lasqueira toda”, relata no vídeo.
As bases de Sandra são tão fortes que, mesmo em tempos de tempestade, ela se equilibra e requebra - de vestido e salto alto. “Mesmo enfrentando o monstro, vivo. Estou de pé. Teimosia? Sei lá. Este monstro me mostrou que preciso aproveitar cada instante”, conta Sandra para inspiração de outras mulheres vítimas da doença.