Região

Novo livro de Acir Filló mergulha no universo dos justiceiros e expõe o submundo da violência

Em "O Coveiro de São Paulo", autor investiga a lógica da vingança e o colapso da segurança pública em um dos países mais violentos do mundo

7 MAI 2026 • POR da Reportagem Local • 15h28
O jornalista e escritor Acir Filló lançou nesta semana o livro "O Coveiro de São Paulo Eu matei mais de mil pessoas" - Divulgação

O jornalista e escritor Acir Filló lançou nesta semana o livro “O Coveiro de São Paulo – Eu matei mais de mil pessoas”, uma obra que mistura investigação jornalística, narrativa literária e documento social para abordar um dos temas mais explosivos e desconfortáveis da realidade brasileira: o surgimento de justiceiros em regiões marcadas pela ausência do Estado e pela banalização da morte.

O livro apresenta Herculano, personagem real que, segundo o autor, passou cerca de duas décadas executando criminosos nas sombras da Grande São Paulo. Apesar do título, Herculano não é um coveiro literal. A pá mencionada na obra é simbólica: representa alguém que “enterra” aquilo que considera o mal da sociedade.

Segundo Filló, o livro não foi escrito para glorificar o personagem nem para transformar violência em espetáculo.

"O justiceiro também é criminoso. Ele utiliza a mesma barbárie para realizar suas supostas vinganças. Ele age na ilegalidade ocupando um espaço que pertence ao  Estado", afirma.

Ao longo de mais de três anos, Filló conviveu com Herculano em Tremembé e Pinheiros e realizou dezenas de entrevistas para reconstruir a trajetória daquele que define como “o maior justiceiro da história de São Paulo, e talvez do Brasil”.

O homem que nasceu em meio à brutalidade

A narrativa reconstrói a infância de Herculano em bairros periféricos da capital paulista marcados pela miséria, pelo medo e pela violência extrema. De acordo com o livro, ele cresceu assistindo o pai alcoólatra agredir brutalmente a mãe dentro de casa durante anos.

A fome constante, os espancamentos, as humilhações e a ausência completa de proteção estatal aparecem como elementos centrais da formação psicológica do personagem.

"Herculano não nasceu monstro. Foi fabricado por uma sociedade e por um Estado omisso e ausente", descreve Acir Filló.

Segundo o autor, foi justamente esse ambiente brutal que ajudou a moldar o homem que mais tarde se transformaria em executor clandestino de criminosos. Ainda adolescente, aos 16 anos, Herculano cometeu o primeiro homicídio motivado por vingança pessoal. A partir daquele episódio, segundo o livro, a violência deixa de ser reação emocional e passa a se tornar método.

"Não parei mais. Exterminar a escória da sociedade virou uma tarefa, uma vocação", afirma o personagem em um dos relatos reproduzidos na obra.

O livro descreve que, ao longo dos anos, Herculano passou a perseguir traficantes, assassinos, estupradores, assaltantes e pedófilos, transformando-se em figura temida no submundo da criminalidade e controversa entre moradores das periferias onde atuava.

Para alguns, um assassino frio. Para outros, um símbolo distorcido de justiça em locais onde o Estado já não conseguia mais impor autoridade.

"O Brasil fabrica justiceiros há décadas. Eles são um sintoma da falência de um país que sempre relegou a segurança a segundo plano", complementa Acir.

Na da obra, Filló sustenta a tese de que personagens como Herculano não surgem isoladamente, mas são consequência direta do colapso social e da falência estrutural do sistema de segurança pública brasileiro.

Na avaliação do autor, o Brasil se tornou, nos últimos vinte anos, um ambiente fértil para o crescimento da violência organizada, da justiça paralela e do desaparecimento de pessoas.

O Brasil assiste vergonhosamente ao assassinato de quarenta mil cidadãos todos os anos em razão da falência e do descaso dos governantes com a segurança pública.

Para o jornalista, o problema envolve um conjunto de fatores históricos e estruturais: falta de investimento em segurança, precariedade das polícias, ausência de saneamento básico, desigualdade extrema, colapso educacional, desemprego e abandono das periferias urbanas.

"Milhões de jovens acabam sendo cooptados pelo crime porque o Estado chega tarde, ou simplesmente não chega", enfatiza.

No livro, o escritor relata que é justamente nesse vazio institucional que surgem figuras como Herculano.

"Os justiceiros ocupam um espaço que há muitos anos o Estado abandonou"

Acir Filló ressalta ainda que o fenômeno da justiça paralela existe no Brasil há décadas e cita como exemplo o caso de Cabo Bruno, acusado de dezenas de assassinatos na década de 1980 e frequentemente associado ao surgimento de grupos de extermínio em São Paulo.

"Este livro não humaniza o justiceiro. Ele revela os sintomas e as causas que fazem o Brasil fabricar centenas ou talvez milhares de justiceiros", conclui Acir Filló.

A morte como rotina

Um dos aspectos mais impactantes do livro é a maneira fria e objetiva como Herculano descreve suas execuções. Sem demonstrar arrependimento ou hesitação, o personagem relata situações de violência extrema como procedimentos cotidianos. Em um dos trechos mais fortes da obra, ele descreve a execução de um suposto criminoso:

“Encapuzado e com dois revólveres engatilhados, eu mesmo julguei e condenei o marginal assassino.”

Em seguida, completa:

“Foram cinco disparos… e um criminoso a menos para atormentar a sociedade.”

Segundo o escritor, o choque do relato não está apenas na violência em si, mas na naturalização e banalização da morte.

"Os assassinatos deixam de ser dilema moral e passam a ser procedimento", afirma o autor em um dos capítulos.

Ao longo da narrativa, o leitor é conduzido por vielas esquecidas, necrotérios clandestinos, periferias abandonadas, cenas de justiçamento e ambientes marcados por medo permanente. O livro sustenta que, em determinadas regiões, a violência deixou de ser exceção e passou a funcionar como linguagem social.

Cemitérios clandestinos e desaparecidos

Outro eixo central do livro é o desaparecimento de pessoas no Brasil. De acordo com o autor, milhares de brasileiros desaparecem todos os anos e grande parte jamais é encontrada. No livro, o autor discorre que muitos desses casos estão diretamente ligados à existência de cemitérios clandestinos espalhados pelo país.

"O Brasil é um gigantesco cemitério clandestino", conta.

Ao longo da obra, Filló descreve covas rasas, terrenos ocultos, áreas periféricas dominadas pelo medo e mecanismos clandestinos de ocultação de cadáveres que, segundo ele, operam silenciosamente há décadas.

São citados casos de repercussão nacional envolvendo desaparecimentos sem solução definitiva, como o de Priscila Belfort, desaparecida no Rio de Janeiro em 2004.

"Onde estão esses corpos? Onde estão essas pessoas? Infelizmente, cheguei à conclusão de que a maioria absoluta dos desaparecidos está morta ou é vítima de tráfico de órgãos e de tráfico humano", revela.

Segundo Filló, o livro busca justamente expor esse “Brasil subterrâneo” que raramente aparece de maneira profunda no debate público.

Do sistema prisional ao universo dos justiceiros

O lançamento de “O Coveiro de São Paulo” consolida a trajetória de Acir Filló dentro do jornalismo investigativo e do gênero True Crime brasileiro.

O autor ganhou notoriedade nacional em 2019 ao lançar o revelador “Diário de Tremembé – O Presídio dos Famosos”, obra em que relatou sua convivência e entrevistas com alguns dos presos mais conhecidos do país no complexo penitenciário de Tremembé, no interior paulista. O livro teve impacto e repercussão nacional. O programa Fantástico, da TV Globo, fez longa reportagem sobre o livro e sua repercussão culminou na prisão de Roger Abdelmassih

No livro, Filló entrevistou nomes como Alexandre Nardoni, Cristian Cravinhos, Gil Rugai, Mizael Bispo e Roger Abdelmassih, com os quais conviveu por dois anos no notório presídio de Tremembé. Filló chegou a ser preso em sob acusação de fraude em licitação, mas posteriormente foi inocentado.

Segundo o autor, investigações realizadas durante aquele período também ajudaram a expor circunstâncias envolvendo o ex-médico Roger Abdelmassih após sua transferência para prisão domiciliar.

Além das obras ligadas ao universo criminal, Filló também é autor da biografia do vice-presidente Geraldo Alckmin, além de outros trabalhos jornalísticos e literários.
 

Livro

O COVEIRO DE SÃO PAULO

“Eu matei mais de mil pessoas”

Autor: Acir Filló

Editora: Alcance

R$69,00

Lançamento 05 maio 2026 – Livraria Drummond

Conjunto Nacional

 

Contato com o autor:

acir.santos@uol.com.br

11-97673-5303