Opinião

O Brasil é o país do empreendedorismo.O que falta para também ser do intraempreendedorismo?

22 MAI 2026 • POR Thiago Adriano • 19h11
Thiago Adriano é diretor de criação, estrategista e empreendedor - Divulgação

Ter um negócio próprio está entre os principais sonhos do brasileiro, ao lado de conquistas como a casa própria. Pesquisas indicam que mais da metade da população brasileira adulta deseja empreender.

Sem dúvida, nossa capacidade de empreender é inquestionável. O brasileiro aprende cedo a improvisar, adaptar, criar soluções e transformar limitação em movimento. Em um país historicamente instável, talvez isso não seja apenas uma qualidade econômica, mas uma forma de sobrevivência cultural.

Não à toa, o Brasil é um dos países mais empreendedores do mundo. Mas então por que ainda não somos também o país do intraempreendedorismo?

O mesmo país que cria tantos empreendedores ainda encontra dificuldade para criar ambientes onde esse comportamento consiga se desenvolver dentro das empresas.

Empreender e intraempreender não são exatamente a mesma coisa. O empreendedor aceita o risco porque controla o próprio caminho. Já o intraempreendedor depende de um sistema que permita iniciativa, autonomia e experimentação. E talvez seja aí que esteja um dos maiores desafios das organizações brasileiras atualmente.

Temos profissionais criativos. Temos repertório. Temos capacidade de adaptação.
O que muitas vezes falta é espaço.

Durante muito tempo, as empresas brasileiras foram estruturadas para eficiência operacional, previsibilidade e controle. O problema é que a economia digital mudou a lógica da vantagem competitiva. Hoje, velocidade de aprendizado importa tanto quanto execução. Inovação deixou de ser um departamento para se tornar um comportamento organizacional, integrado entre todas as áreas da empresa.

Só que inovação não nasce em ambientes onde toda decisão sobe, todo erro pesa e toda ideia precisa chegar pronta. Muitas empresas ainda operam com um paradoxo: dizem buscar inovação, mas mantêm estruturas desenhadas para minimizar desvios.

Isso ajuda a explicar um fenômeno cada vez mais comum no mercado. Muitos dos profissionais mais inquietos e criativos permanecem nas empresas, mas buscam ambientes em que possam construir, testar e participar de forma mais ativa das decisões e dos caminhos do negócio. Quando esse espaço não se estabelece internamente, o movimento natural é direcionar essa energia para fora.

O Brasil passa a formar um volume expressivo de empreendedores externos, impulsionado tanto por vocação quanto pela percepção de que empreender fora oferece mais viabilidade do que transformar estruturas por dentro.

O desafio, e ao mesmo tempo a oportunidade, das empresas vai além de se concentrar apenas na atração de talentos com perfil empreendedor, amplamente disponíveis no mercado. Passa principalmente pela capacidade de preparar as organizações para absorver essa energia sem limitá-la. 

Estudos sobre intraempreendedorismo e inovação organizacional já indicam que autonomia, flexibilidade estratégica e acesso à informação estão diretamente associados a ambientes mais inovadores.

É importante refletir sobre novos processos, mas, principalmente, sobre uma mudança cultural. Empresas que desejam estimular o comportamento intraempreendedor precisam substituir parte da lógica de controle por uma lógica de contexto, desenvolver lideranças menos centralizadoras e estruturar ambientes em que a iniciativa seja incorporada como parte natural da evolução organizacional.

Esse movimento pede uma direção bem definida e, ao mesmo tempo, o entendimento de que a inovação ganha força em ambientes onde a construção do futuro é compartilhada.

O Brasil já mostrou que sabe formar empreendedores. Resta saber se as empresas estão prontas para transformar essa característica em uma força interna e contínua. 

Acredito que temos tudo para nos tornar uma referência global em intraempreendedorismo.