Imigração japonesa ajudou a moldar identidade cultural de Suzano
Aos 77 anos, Keiko Anraku relembra chegada ao Brasil, desafios da adaptação e contribuição da colônia japonesa
Neste dia 18 de junho, o Brasil celebra o Dia Nacional da Imigração Japonesa, data que marca os 118 anos da chegada do navio Kasato Maru ao país, em 1908. Em Suzano, município reconhecido pela forte presença da comunidade nipo-brasileira, a imigração japonesa ajudou a construir parte importante da identidade cultural, econômica e educacional da cidade ao longo das últimas décadas.
Atualmente, entidades nipônicas estimam que cerca de 18 mil pessoas e aproximadamente 1,5 mil famílias com ascendência japonesa vivem em Suzano. Entre essas histórias está a da educadora Keiko Anraku, que chegou ao Brasil ainda criança e acompanha há quase 70 anos as transformações do município.
Natural do Japão, Keiko desembarcou no Brasil em 1957, aos oito anos de idade, ao lado dos pais, quatro irmãos e familiares próximos. A mudança aconteceu no período pós-guerra, quando muitas famílias japonesas buscavam recomeçar a vida em outros países. Segundo ela, o desejo de emigrar partiu principalmente do pai, que enxergava o Brasil como um país de oportunidades e estabilidade. “Meu pai falava que queria morar em um país que não tivesse incêndio, terremoto e guerra”, relembra.
Antes de chegar em Suzano, a família permaneceu por um ano em Indaiatuba, no interior paulista. Em 1958, mudou-se definitivamente para o Alto Tietê, onde construiu raízes. Keiko conta que, na infância, ainda não compreendia completamente o impacto da imigração, mas sentiu rapidamente as dificuldades da adaptação, especialmente por não falar português. “Eu só sabia escrever meu nome porque meu pai ensinou. Na escola, eu não entendia as palavras. Uma vez a professora perguntou: ‘Uma galinha tem dois pés, dez galinhas quantos pés são?’. Eu não sabia o que era galinha, não sabia o que era pé”, lembra.
Ela afirma que o aprendizado da língua foi um dos momentos mais marcantes da infância. “Quando eu consegui entender o enunciado de matemática pela primeira vez, foi uma glória”, diz.
Ao recordar os primeiros anos em Suzano, Keiko descreve uma cidade muito diferente da atual. Sem asfalto em diversas vias e com pouco movimento de veículos, a rotina era marcada pela convivência entre vizinhos e pelas brincadeiras de rua. “A gente morava na Avenida Antônio Marques Figueira e todas as crianças brincavam juntas na rua. Tinha pouca bicicleta e quase nenhum carro”, conta.
Ela relembra que as crianças brincavam até mesmo na chuva e na lama das ruas de terra, cenário distante da realidade urbana atual. “Hoje Suzano cresceu muito. Virou um colosso, como todas as cidades do Alto Tietê. Mas naquela época todo mundo se conhecia”, afirma.
A ligação de Keiko com a educação começou ainda na rede pública municipal. Durante anos, atuou como diretora da Escola Municipal Antônio Marques Figueira. Após a aposentadoria, recebeu o convite para assumir a direção do Cenibras, instituição criada pela colônia japonesa na região do bairro Chácaras Reunidas Guaio para fortalecer a preservação da cultura japonesa entre as novas gerações.
Segundo ela, a escola nasceu a partir do esforço coletivo da comunidade japonesa local, com campanhas, doações e eventos beneficentes para arrecadar recursos. Hoje, além do ensino regular, o Cenibras oferece aulas de japonês no contraturno escolar e se tornou referência para famílias que retornam do Japão e buscam adaptação cultural para os filhos.
Keiko explica que muitas crianças chegam ao Brasil falando apenas japonês após anos vivendo no exterior com os pais. “De manhã elas tinham dificuldade porque não entendiam português. Mas à tarde, nas aulas de japonês, elas se destacavam e ensinavam aos colegas. Isso ajudava na autoestima e na adaptação”, relata.
Para Keiko, a contribuição da imigração japonesa em Suzano vai além da preservação de tradições típicas. Ela acredita que valores culturais como disciplina, respeito e dedicação ao trabalho fazem parte do principal legado deixado pela comunidade nipo-brasileira. “O Brasil é um país multicultural. Então assim como outras culturas, os japoneses puderam contribuir”, afirma.
Ela também destaca que o interesse pela cultura japonesa permanece vivo mesmo entre pessoas sem ascendência oriental, impulsionado por animes, mangás, gastronomia e festivais culturais. “Muita gente se aproxima da cultura japonesa pelos filmes, pelos mangás, pelos eventos. Isso mantém a cultura viva”, comenta.
Ao falar sobre as tradições que considera importante preservar, Keiko cita o respeito aos mais velhos, a valorização da educação e os gestos cotidianos de gratidão. “Agradecer pela comida, respeitar os idosos, cumprimentar as pessoas. São coisas simples, mas importantes”, diz.
Após quase sete décadas vivendo em Suzano, Keiko afirma que a cidade se tornou definitivamente o seu lar. “É como se eu tivesse nascido aqui. Minha terra é aqui”, relata.
Ela diz sentir orgulho ao acompanhar o crescimento do município e acredita que a imigração japonesa faz parte da construção da identidade suzanense. “Todos os imigrantes têm contribuição a dar. Eu gostaria que a cultura japonesa fosse lembrada como algo que veio agregar ao povo brasileiro”, concluiu.