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Luto sem morte: por que algumas perdas machucam tanto quanto uma despedida irreversível?

Fim de relacionamentos, saída dos filhos de casa e diagnósticos de doenças estão entre as situações que podem afetar significativamente a saúde mental

18 JUN 2026 • POR da Reportagem Local • 15h27
Luto sem morte: por que algumas perdas machucam tanto quanto uma despedida irreversível? - Divulgação

Quando se fala em luto, muitas pessoas pensam imediatamente na morte de alguém querido. Mas e quando a dor nasce de uma perda que não envolve um funeral ou uma despedida definitiva?

No Dia Nacional do Luto, lembrado neste 19 de junho, especialistas chamam atenção para uma realidade pouco discutida: nem todo processo está relacionado à morte. O fim de um casamento, uma demissão inesperada, a aposentadoria, o diagnóstico de uma doença crônica, a perda da autonomia física ou até a saída dos filhos de casa podem desencadear um sofrimento profundo, muitas vezes silencioso e pouco compreendido por quem está ao redor.

"Dependendo da importância do que foi perdido, a intensidade do sofrimento pode ser muito grande. Isso porque o cérebro reage não apenas à ausência de pessoas, mas também à ruptura de vínculos, projetos, rotinas e papéis que ajudavam a construir a identidade e o sentido da vida”, pontua o psiquiatra da Hapvida, Lívio Leal.


Ele alerta que, embora muitas vezes essas perdas sejam invisíveis aos olhos de quem está ao redor, a tristeza profunda desencadeada por esse processo de despedida pode afetar a saúde mental e exigir acolhimento, assim como acompanhamento profissional.

“Existe uma falsa ideia de que, como não houve uma morte, essas situações podem ser mais fáceis de superar, mas nem sempre é assim", orienta o médico.

Despedidas

As explicações do psiquiatra ajudam a entender por que algumas mudanças consideradas "naturais" podem provocar sentimentos tão intensos de tristeza, vazio e desorientação.

É o caso de uma separação amorosa. “Términos e divórcios, por exemplo, são vivenciados em forma de luto, com sentimentos de falta, tristeza, mistura de lembranças, saudades, negação, resistência e recusa, às vezes também combinados com sentimentos negativos de raiva, amargura e rancor”, frisa Leal.

O sentimento pode se estender à aposentadoria ou à perda de um emprego construído ao longo de décadas. "Isso também pode representar uma sensação de perda de uma identidade social", reflete o profissional.

Outro exemplo pouco discutido é a chamada Síndrome do Ninho Vazio, expressão popular utilizada para descrever o sofrimento vivido por pais que enfrentam a saída dos filhos de casa. "Aquele familiar não consegue se adaptar à nova dinâmica da casa e permanece muito apegado ao jeito que as coisas eram antes", observa o especialista.

O mesmo pode acontecer após o diagnóstico de uma doença crônica ou incapacitante. Nesses casos, o indivíduo muitas vezes precisa lidar com a perda do próprio corpo saudável, da autonomia, de projetos futuros e até da sensação de estar mais vulnerável à morte.

"Somos obrigados a enfrentar o luto daquilo que acreditávamos ser. Perdemos capacidades, planos e até a ideia de que estamos distantes da fragilidade humana", considera o especialista.

Ninguém vê

Diferentemente de perder alguém por morte, situação que naturalmente desperta acolhimento e solidariedade de terceiros, os chamados "lutos invisíveis" podem, equivocadamente, encontrar outro caminho: o do julgamento.

Frases como "isso é frescura", "já passou da hora de superar" ou "pelo menos ninguém morreu" são comuns e podem aumentar ainda mais o sofrimento, alerta o médico.

"O luto é sempre uma experiência subjetiva. Só quem perdeu sabe o que perdeu e o quanto aquilo era importante. Quando a dor é minimizada, a pessoa se sente ainda mais sozinha, incompreendida e sem apoio para enfrentar aquele momento", ensina Leal.

Deixa de ser adaptação

Sentimentos como tristeza, desânimo e dificuldade para seguir a rotina após uma perda são esperados, mas há situações em que o sofrimento ultrapassa os limites considerados saudáveis e passa a exigir atenção especializada.

De acordo com o psiquiatra, um sinal importante é quando a dor permanece intensa por longos períodos e começa a comprometer a vida da pessoa.

"No luto considerado normal, mesmo sofrendo, a pessoa mantém a vontade de viver e consegue preservar suas atividades cotidianas. Aos poucos, os sentimentos vão diminuindo de intensidade. Quando existe um prejuízo funcional importante, persistente e prolongado, é necessário buscar ajuda."

Entre os sinais de alerta estão isolamento excessivo, incapacidade de retomar a rotina, perda intensa de prazer, alterações importantes no sono e no apetite, sentimentos constantes de inutilidade e pensamentos relacionados à morte.

Como reconstruir a vida

Embora não exista uma fórmula para atravessar o luto, o especialista reforça que o melhor é sempre buscar apoio emocional, conversar sobre a dor, preservar vínculos afetivos e permitir-se viver a perda. Atitudes consideradas fundamentais para a recuperação.

"O objetivo não é esquecer aquilo que foi perdido, mas aprender a seguir vivendo apesar da ausência. Precisamos dar espaço tanto para sentir a falta quanto para construir novos vínculos, novas atividades e novos significados", explica Leal.

Para quem está enfrentando uma mudança profunda e sente que perdeu uma parte de si, o psiquiatra deixa uma mensagem de acolhimento.

"Não existe um jeito certo de sentir nem um prazo para superar. Cada pessoa tem seu próprio tempo. E, sempre que estiver difícil, peça ajuda. Ninguém consegue eliminar o sofrimento da vida, mas ninguém precisa sofrer sozinho. Com o tempo e com apoio, a vida volta a fazer sentido, mesmo que de uma forma diferente daquela que existia antes."

 

Sobre a Hapvida   

Com mais de 80 anos de experiência, a Hapvida é hoje a maior empresa de saúde integrada da América Latina. A companhia, que possui mais de 77 mil colaboradores, atende quase 16 milhões de beneficiários de saúde e odontologia espalhados pelas cinco regiões do Brasil.

Todo o aparato foi construído a partir de uma visão voltada ao cuidado de ponta a ponta, a partir de 85 hospitais, 74 prontos atendimentos, 364 clínicas médicas e 309 centros de diagnóstico por imagem e coleta laboratorial, além de unidades especificamente voltadas ao cuidado preventivo e crônico. Dessa combinação de negócios, apoiada em qualidade médica e inovação, resulta uma empresa com os melhores recursos humanos e tecnológicos para os seus clientes.