Agiota e comparsa são presos em Mogi; vítima tinha dívida de R$ 400 mil
Vítima teve o carro levado e ainda foi coagida a transferir um imóvel aos suspeitos, uma vez que não seria capaz de pagar toda a quantia exigida
A Polícia Civil de Mogi das Cruzes deflagrou, nesta terça-feira (11), a Operação Juros Compostos para desarticular um grupo criminoso especializado em extorsão e cobranças violentas de empréstimos. Segundo a corporação, a investigação começou após um homem, de 46 anos, relatar que uma dívida inicial de R$ 18 mil ultrapassou R$ 400 mil devido à aplicação sucessiva de juros. Como parte do pagamento, a vítima teve o carro levado e ainda foi coagida a transferir um imóvel aos suspeitos, uma vez que não seria capaz de pagar toda a quantia exigida.
Durante a operação, a Vara Regional das Garantias de Guarulhos expediu mandados de busca e apreensão para endereços específicos identificados durante a investigação prévia. Além disso, a esposa do agiota indicou, espontaneamente, dois endereços adicionais que não constavam nos mandados e autorizou expressamente o ingresso dos policiais e a realização das buscas.
As ações foram realizadas em diferentes pontos de Mauá, Santo André e Mogi das Cruzes. Ao todo, foram apreendidos quatro carros, uma motocicleta, um jet ski, um revólver calibre .32, um coldre, oito munições calibre .380, duas calibre .44 e uma calibre .38. Também foram recolhidos cinco celulares, um notebook, uma televisão, caixas de som, nove coletes salva-vidas, dois relógios de pulso, documentos diversos e panfletos de “Soluções Financeiras”.
Ocorrido
A vítima procurou a polícia no dia 5 de agosto para pedir ajuda. Segundo o boletim de ocorrência, após enfrentar uma queda brusca de faturamento na própria empresa, o homem buscou fazer um empréstimo com um agiota. Na ocasião, durante o ano de 2025, a vítima recebeu R$ 18 mil emprestado, cujos pagamentos dos juros foram exigidos no valor de R$6,8 mil todo dia oito de cada mês.
Como a situação econômica da vítima não melhorou, ele não conseguiu arcar com os pagamentos nas datas exigidas. O agiota passou a cobrar "juros sobre juros" sobre os valores inadimplentes.
Mesmo após uma renegociação para baixar os juros mensais para R$ 5.000,00, a dívida saiu de controle.
Em razão das taxas, o montante exigido saltou de R$ 18 mil para mais de R$ 400 mil. Com base nesse valor, o agiota passou a exigir que a vítima transferisse um imóvel de sua propriedade para ele, simulando uma venda para terceiros.
Na data em que o homem procurou a polícia, ele havia sido contatado pelo agiota para um encontro na cidade de Mauá. No local, ele foi coagido por três indivíduos armados, presenciou um disparo de arma de fogo e teve seu veículo, Mercedes-Benz C180, levado pelos criminosos como parte da "cobrança".
Prisão do agiota
A prisão do agiota aconteceu em duas etapas nesta terça-feira (11), após um mandado de prisão temporário de 30 dias ser expedido. O suspeito havia marcado outro encontro com a vítima, nas proximidades da Estação Capuava, no município de Mauá. O objetivo do encontro, segundo as investigações, era coagir a vítima a efetivar a transferência do imóvel.
As equipes policiais, que já monitoravam o agiota durante a Operação Juros Compostos, realizaram a intervenção no local e o encontraram na condução do veículo que antes pertencia à vítima. Durante a abordagem, o suspeito foi informado sobre o mandado e, em vistoria no carro, a polícia localizou um revólver calibre .32 escondido no assoalho.
Já com os agentes, o agiota foi levado ao 1º Distrito Policial de Mogi das Cruzes. Porém, enquanto estava dentro da cela, o suspeito começou a gritar insistentemente. Ao abrirem a porta para verificar, o agiota avançou fisicamente contra os agentes.
Ainda segundo o boletim de ocorrência, foi necessário o uso de força física e algemas para contê-lo. Dois policiais ficaram feridos.
O suspeito foi preso em flagrante e autuado pelos crimes de resistência, lesão corporal, porte ilegal de arma de fogo de uso permitido, posse ou porte ilegal de arma de fogo/munição de uso restrito e associação criminosa.
Comparsa
Houve ainda uma segunda prisão referente a Operação Juros Compostos nesta terça-feira (11). Um homem suspeito de estar envolvido com o agiota foi visto acompanhando os policiais em seu carro, um Hyundai HB20 branco, durante toda a operação.
O suspeito seguia os agentes durante os deslocamentos, filmava as ações e encaminhava as imagens em tempo real para grupos de Whatsapp vinculados aos outros suspeitos e, inclusive a um terceiro investigado conhecido como “Alemão”. De acordo com a polícia, ele seguiu as equipes até o 1º DP de Mogi das Cruzes, onde foi abordado.
No veículo usado por ele, foram encontradas sirenes característicos de viaturas policiais. Ao ser questionado, o homem confessou aos policiais que utilizava tal dispositivo para realizar as "cobranças" do grupo criminoso. Ele foi preso em flagrante por usurpação de função pública e associação criminosa.
As investigações prosseguem para o esclarecimento integral da atuação do grupo, à identificação de outras possíveis vítimas e à apuração da origem dos diversos bens apreendidos. Os demais integrantes da quadrilha ainda não foram capturados.