Colunista

Como deve ser o amor entre o casal?

06/10/2015 08:00


Jorge LordelloUm grupo de estudantes falava sobre o tema casamento numa faculdade. Argumentavam que o que mantinha um casal era o romantismo, e que se por ventura deixasse de existir, seria preferível acabar com a relação. Nesse momento, passava o professor de filosofia, que resolveu se intrometer na conversa e contou passagem de sua vida: "Meus pais viveram 55 anos de casados. Uma manhã, minha mãe descia as escadas para preparar o café para a família, quando teve infarto, gritou e caiu ao chão. Meu pai correu até ela, levantou-a como pôde e, quase se arrastando, levou-a até o carro. Sem respeitar o trânsito, dirigiu à toda velocidade até o hospital. Quando chegou, infelizmente, ela já havia falecido. Durante o enterro, ele não falou, ficava olhando para o nada. Quase não chorou. Já em casa, família toda reunida num ambiente de dor e nostalgia, recordamos momentos únicos com mamãe. De repente, meu pai bradou: "Levem-me ao cemitério, agora!!!". "Mas pai, são onze da noite! Não podemos ir ao cemitério neste horário!", argumentei. Aí, ele ergueu a voz e disse: "Por favor, não discuta com um homem que acaba de perder aquela que foi sua esposa por quase 6 décadas". Fomos ao cemitério e pedimos permissão ao funcionário, que nos atendeu prontalmente. Com uma lanterna, encontramos a lápide. Meu pai a acariciou, chorou e disse aos filhos, comovidos: "Foram 55 bons anos... Ninguém pode falar do amor verdadeiro se não compartilhou a vida com uma mulher assim. Ela e eu estivemos juntos naquela crise... Mudei de emprego, recompramos toda a mobília quando vendemos a casa e mudamos de cidade. Compartilhamos a alegria de ver nossos filhos consolidarem suas carreiras; choramos um ao lado do outro quando entes queridos partiram e oramos juntos nas salas de espera de alguns hospitais, nos apoiando nessas horas de dor. Nos abraçamos em cada Natal e perdoamos nossos erros. Filhos, agora ela se foi e estou contente, sabem por quê? Porque ela se foi antes de mim, não teve que viver a agonia e a dor de me enterrar, de ficar só depois da minha partida. Agradeço a Deus por ser eu a passar por isso. Eu a amo tanto que não gostaria que sofresse assim". Naquela noite, entendi o que é o verdadeiro amor. Bastante além do romantismo, sem muito a ver com erotismo, mas que bem se vincula ao trabalho e ao cuidado a que se professam duas pessoas realmente comprometidas uma com a outra". Quando o professor terminou de contar a bela história de seus pais, os jovens universitários permaneceram calados. Esse tipo de amor era algo que não conheciam. E, talvez, a geração de hoje não venha a conhecer.