Colunista

Parentesco

17/10/2015 08:00


suami-cor_Sei lá por qual razão, senti vontade de abrir um vinho branco. Um alemão, um Riesling, de que já sentia falta. Tinha escondidinho lá na adega. Uma delícia, aquilo de meio-doce, meio-seco. Cheio de frescor, um tanto de acídulos, com notas vegetais, florais e minerais. Lembrei do meu sogro, Martin, alemão, de quem gostava, que tinha a sabedoria dos mais velhos, que sabia não precisava exibir e que sabia ouvir, que me ouvia. E de quem pude cuidar até ele decidir partir. Minha terceira netinha havia chegado, a Chloe. Assisti o nascimento. Lá estava a mãe, minha nora, Juliana. A pequenininha, foi surgindo e de algum modo parecia cumprida. As outras duas, Sofia e Alice, são altas. Os pais delas são altos. Eu e minha mulher somos altos. Mais coincidências biológicas? Existe isso? Enfim. Chloe! Por que esse nome? Porque encantou os pais. Talvez ela fosse se chamar Beatriz. Algo poético com gosto de Jobim? Chloe vem do grego, “folhagens verdejantes”. Precisamos tanto disso. Meu filho, Rodrigo, nasceu na França, perguntei será “Chloé”? Não. Seria pelo avô alemão: “Chloë”? Não, seria em português antigo, brasileiro, de que ele se orgulha. Lembrei do nascimento do meu filho, que assisti. E que me mudou como pessoa. Lembrei do nascimento da minha filha, Juliana, que ampliou essas mudanças em mim. Lembrei das outras netinhas, que me passam um amor lindo, que não sei descrever. Elas só demonstram encanto pelo avô. Não estão preocupadas em entender ou explicar os seus sentimentos. Eu me encanto e agradeço por recebê-los. O que terei feito para merecê-los? Agradeço a minha mulher que, sinto ser a base, de tudo isso, de que hoje usufruo. É resultado de uma união. Jamais deixarei de reconhecer. E do tempo. E do aprendizado que somos capazes de receber e reter, e perceber, ou seja, de aprender. E tem tanto sentimento aí pelo meio, que ao nos sensibilizar não nos enfraquece. Ao contrário, nos fortifica, torna-nos muito mais resistentes aos sabores e dissabores. Teria de agradecer aos meus pais? De algum modo, sim. Sou o que sou, provavelmente, devido a eles. Teria de agradecer aos meus avôs, que igualmente, de variáveis modos, teriam contribuído? Teria de agradecer aos pais da minha mulher, seus avós. Aos pais da minha nora, seus avós? Melhor agradecer a todos. Nem sabemos como tudo isso passa, como se passa. Sei que o encantamento da ligação, do parentesco, nos surge assim, sem explicações. E nos tornam um tanto mais doces na vida. Um brinde! Às folhagens verdejantes!