Caderno D

Matheus Nachtergaele faz belo retrato de Zé do Caixão em minissérie

14/11/2015 07:00


Com todo respeito por José Mojica Marins, Matheus Nachtergaele consegue ser mais Zé do Caixão que ele. O ator é a alma da minissérie que começou ontem no Space. São seis episódios,sempre nesse dia e horário, 22h30. Os dois primeiros foram exibidos pela Mostra, como homenagem a Mojica. Poderiam estrear nos cinemas como um filme de duas horas sobre a gênese de “Zé do Caixão”. Em “O Tapete Vermelho”, de Luiz Alberto Pereira, Matheus fez um personagem inspirado em Mazzaropi, não exatamente o comediante que deu cara ao jeca paulistano. Em “Zé do Caixão”, de Vítor Mafra, ele não faz um personagem “inspirado”, mas o próprio. Em princípio, nada os aproximava, e muito menos o físico. Essa parte foi resolvida com auxílio de figurino, maquiagem. O temperamento é mais uma questão de interpretação. Pelo menos nos dois primeiros capítulos, e nesse que o telespectador viu, o Zé do Caixão de Matheus e Mafra é um pouco o Ed Wood brasileiro. Basta lembrar-se do personagem icônico de Tim Burton, com Johnny Depp. Wood era um homem com um sonho. Queria ser um grande cineasta - foi o pior do mundo, reza a lenda. Burton, numa licença poética, chegou a imaginar um encontro - que nunca houve - entre Ed Wood e o criador de Cidadão Kane, Orson Welles. O pior e o melhor diretor do mundo, ambos apaixonados por seu meio de expressão. No começo, Mojica dá aulas de interpretação e toma dinheiro dos alunos, em troca de papéis, para garantir a produção. Embora com liberdades, a história é real. Ainda nos anos 1950, Mojica estreou com um faroeste caboclo intitulado Sina de Aventureiro. A gênese do cineasta é, um pouco, a da Boca do Lixo. Bangue-bangue e sexo. O importante é mostrar a mocinha como uma gostosa. A filmagem movimenta uma cidade do interior. O padre enlouquece de desejo pela estrela. Um marido zeloso deixa-se seduzir pelo mundo da “arte”. A mulher ciumenta troca balas de festim por projéteis de verdade e quase provoca uma tragédia. A similaridade com Ed Wood não diz tanto respeito ao talento, mas a circunstâncias de produção. Autodidata, Mojica valia-se de expedientes (as aulas) para financiar a vocação. Era um primitivo, avançando na intuição. No próximo capítulo, aí sim, chegando ao fundo do poço e desistindo do western brasileiro, Mojica vai se reinventar no terror, criando seu personagem emblemático - Zé do Caixão. Depois de À Meia-Noite Levarei Sua Alma, de 1964, e percorrendo uma via que praticamente não existia no Brasil - o terror -, ele iniciou a trajetória que o levou a obter reconhecimento até no exterior, onde Zé do Caixão virou (nos EUA) Coffin Joe.