Cidades

Só um terço dos estudantes assiste aulas online, estima sindicato dos professores

Sindicato dos Professores de Suzano também denunciou uma série de problemas encontrados nas ferramentas

20/05/2020 22:35


De 35 alunos matriculados em uma sala do Ensino Fundamental II da rede estadual em Suzano, cerca de dez - um terço - têm se empenhado para assistir as aulas em aplicativos cedidos pelo governo do Estado. Relatos de professores indicam que, em boa parte das salas, a quantidade de alunos presentes é menor que isso.
 
Os professores denunciam uma série de problemas que estão enfrentando para dar aulas online aos alunos durante o período de pandemia. Segundo informações da subsede de Suzano do Sindicato dos Professores no Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), muitos alunos não têm acesso à internet ou conseguem baixar o aplicativo por limitações no celular, o que gera uma "desigualdade" e "prejuízo pedagógico".
 
"Muitos pais precisam se alimentar, e não vão priorizar o ensino a distância. Mesmo que algumas aulas sejam transmitidas pela TV Cultura, nem acesso à tv aberta alguns têm direito", conta a professora Barbara Soares de Barros, conselheira estadual da Apeoesp em Suzano.
 
Isso ocorre porque muitas crianças precisam acessar navegadores de internet, como o google, por exemplo, para realizar pesquisas sobre a matéria. Segundo Barbara, a forma como as aulas são dispostas na TV Cultura também prejudica os alunos, que não conseguem esclarecer dúvidas sobre a matéria.
 
"Tenho conversado com meus alunos, e alguns têm um celular para três ou quatro irmãos. Os que têm acesso, são dessa forma precária", revela a professora.
 
Além das queixas dos alunos, os professores reclamam do sistema de organização de aulas. Para eles, o Estado deveria "padronizar" as aulas. De acordo com a Apeoesp, as escolas ficaram livres para escolherem a melhor forma de organizar as aulas, o que tem dificultado a vida de professores que ministram em três ou quatro escolas.
 
"No primeiro momento, a rede estadual não organizou a ordem, deixaram para as escolas decidirem como achassem melhor. Isso causou tumulto, porque cada unidade organizou de um jeito e cada escola acessou de uma forma. Para cada unidade, a gente monta um sistema de aulas diferente", relata Barbara.
 
Muitos professores têm encontrado dificuldades para usar o aplicativo Centro de Mídias, do governo. De acordo com a Apeoesp, o Estado não os preparou para usar o aplicativo.
 
"Estamos trabalhando muito mais para montar essas aulas, porque ninguém tinha experiência neste formato. O período de formação foi insuficiente, e só agora estão surgindo algumas coisas que tentam ajudar o professor a entender a plataforma toda. A gente compreende o período de pandemia, mas não tivemos essa formação. Há muita dificuldade para aprender a ferramenta".
 
Há preocupação também com a imagem dos professores, que querem saber se o Estado dá respaldo para esses casos. 
 
"Não temos segurança nenhuma. A gente autoriza (nossa imagem) se quiser, mas não somos obrigados. Temos medo de falhas, por mais que tenhamos edições e tudo. Se (algo que falarmos) cair na rede, podem usar nossa imagem de alguma forma errada. Isso nos deixa inseguros", disse a conselheira.
 
"O prejuízo pedagógico é imenso. O que observamos é que a presença faz toda a diferença", finalizou Barbara.
 
Estado rebate críticas e vê ‘boas respostas’ de alunos
 
A Secretaria Estadual de Educação informou que os alunos que não estão acompanhando as aulas pelo Centro de Mídias (CMSP), podem estar usando a TV Cultura, que exibe as mesmas aulas do aplicativo durante a pandemia. 
 
O subsecretário de articulação da pasta, Henrique Pimentel Filho, rebateu as diversas críticas feitas pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) e disse que a associação já confrontou a secretaria na Justiça, referente às iniciativas que estão sendo feitas pela pasta, e que a Apeoesp perdeu o processo. Ele citou o nome da juíza do caso e o número do documento.
“Questionaram a Secretaria na Justiça, sobre as iniciativas, em termos de ensino mediado pela tecnologia neste período, e perderam. Estamos conseguindo dar boas respostas, e tivemos o respaldo legal”, afirmou o subsecretário.
 
Sobre a reclamação de internet insuficiente e a não liberação navegadores aos alunos, o representante da pasta reforçou que o Centro de Mídias funciona sem internet, e que as pesquisas no Google, por exemplo, fazem parte de um “processo de aprendizagem” do estudante. Disse que isso não ocorre em decorrência do aplicativo e que os alunos podem combinar com a direção da escola o uso de rede caso necessitem baixá-lo. Um material didático, incluindo livros, foi distribuído, e todos que receberam foram orientados a baixar o aplicativo na escola.
 
Com relação à queixa de padronização de aulas, Filho julgou como “incoerente”, já que cada estudante tem uma realidade diferente. “Fazer uma cartilha para o professor é algo que não cabe neste momento. Orientamos as escolas sobre organização. (Padronizar) vai limitar e prejudicar a qualidade do trabalho deles em aula”, justificou.
 
O subsecretário disse que os professores tiveram três dias para aprender a usar o aplicativo, e que eles têm uma série de tutoriais disponíveis que ensinam a usá-lo. Sobre a questão de imagem e som, Filho disse que os educadores assinaram termo autorizando a veiculação, que a pasta de Educação tem “respaldo legal” sobre isso e que os professores devem tomar cuidado com interações individuais, como no dia a dia.
 
“Estamos organizando o retorno já prevendo uma avaliação diagnostica, para mensurarmos habilidades que ficaram pelo caminho e organizarmos o programa de reforço e recuperação”, finalizou.
 

Daniel Marques - de Suzano