Editorial

Partos em discussão

22/08/2015 08:00


A saúde pública novamente está em discussão. Desta vez para tratar de um assunto importantíssimo e que atinge as mulheres: os partos. Com dados de 2013, a Pesquisa Nacional de Saúde, divulgada ontem pelo Ministério da Saúde, em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que 54,7% dos partos brasileiros são cesáreas, número muito acima da recomendação de 15% da Organização Mundial da Saúde (OMS). Fora do Sistema Único de Saúde (SUS), a proporção chega a 88%. O ministro da Saúde, Arthur Chioro, considerou ontem inadmissível a proporção de cesarianas realizadas no Brasil. Segundo ele, o País vive uma epidemia deste tipo de parto. Para ele, o País precisa reconhecer que vive uma epidemia de cesarianas. Sobre os riscos de uma cesariana mal indicada, o ministro disse que o governo não está lidando com um problema simples. Aqui não se trata de criminalizar a cesariana, o médico ou a mulher, no momento em que o parto é necessário. O problema é que a cesariana mal indicada traz 120 vezes mais riscos de prematuridade para a criança, aumenta em 24% o risco de mortalidade neonatal e aumenta em três vezes o risco de mortalidade materna. Médicos explicam que a cesariana, como se sabe, é uma intervenção cirúrgica no útero para extrair o feto. É uma técnica que salva vidas todos os dias e seu desenvolvimento foi uma grande conquista da medicina. Originalmente, a cesárea deveria ser indicada apenas em situações delicadas, onde o risco para a mãe ou bebê não permitisse deixar a natureza agir por si. E, de preferência, a decisão pela cirurgia deveria ser tomada já com o trabalho de parto iniciado. Mas no Brasil existe uma “epidemia de cesarianas pré-agendadas”. E o resultado é uma população de bebês nascidos antes da hora com todas as complicações que a prematuridade oferece, assim como um grande número de mães frustradas com a experiência do parto. A discussão sobre o tema é pertinente. O momento é de profissionais, entidades médicas, universidades e governo se apropriarem dos dados para planejar mudanças na organização e gestão dos serviços de saúde, inclusive dando mais multidisciplinariedade ao atendimento. O objeto final é fazer com que mães e bebês não tenham complicações e sim se mantenham saudáveis após o parto.