É preciso bater na tecla da mobilidade urbana para que gestores de políticas públicas reflitam sobre o assunto. Se comparado com o corpo humano, o sistema de mobilidade seria como o sistema circulatório: muito peso e muita gordura geram entupimentos, congestionamentos, obstruções.
Sistemas de mobilidade concentrados ou com predomínio de apenas um modal é tão pobre como a monocultura de qualquer plantação. Então uma ideia importante é diversificar e integrar os modais de mobilidade urbana.
Do ponto de vista econômico, diversificar os modais e constituir um sistema integrado de mobilidade urbana certamente tem efeito multiplicador da renda com aumento do emprego, dado que desencadeia uma série de demandas, dentre as quais, tecnológicas, metalúrgicas, siderúrgicas e de construção civil.
Países como Alemanha, Hong Kong, França e Holanda são exemplos interessantes que podem inspirar os gestores públicos a refletir sobre a mobilidade urbana.
Berlim, capital da Alemanha, por exemplo, tem mais de mil quilômetros de ciclovia e continua investindo nessa alternativa de transporte urbano. Recentemente, a cidade tem investido em vias para comportar bicicletas e pedestres. A taxa de tráfego a pé equivale à de automóveis. Quanto ao deslocamento por automóvel, destaca-se que Berlim possui mais de 50 mil carros elétricos com estações de recarga espalhadas pela cidade.
Em Hong Kong são dois destaques: um planejamento urbano no qual 3 de cada 4 moradias estão a menos de 1 quilômetro de uma estação de metrô; e o Bilhete Único Ampliado que integra ônibus, metrô, bonde, barco, e trens de alta velocidade.
Na França é interessante pensar em diversos dos mais de 36 mil municípios. É isso mesmo! A França tem o território equivalente ao de Minas Gerais e 36 mil municípios. Apesar da diversidade de experiências locais e fundamentalmente intermunicipais por meio de consórcios entre as cidades, fico com apenas dois exemplos: Paris e Montpellier. Paris tem mais de 220 quilômetros de metrô organizado em mais de 300 estações e suas linhas e estações continuam em expansão. Paris é o exemplo de que o investimento em metrô é interessante também para aumento dos empregos e da renda. Montpellier, por sua vez, é um dos 10 maiores municípios franceses e tem mais de 300 mil habitantes, 5 linhas de bonde (tramway) com aproximadamente 100 estações que percorrem mais de 60 quilômetros, mais de 30 linhas de ônibus complementares e circulares a partir de cada estação de bonde (tramway), além das linhas de ônibus intermunicipais, estacionamentos nos limites da cidade para que os motoristas deixem seus veículos e usem o transporte público, parques lineares com ciclovias acompanhando os rios.
Finalmente, a Holanda, com aproximadamente 900 mil bicicletas para uma população residente de 800 mil pessoas. Além do sistema cicloviário, a diversidade de modais integrados é impressionante: barcos, bondes elétricos, centrais de táxi, metrôs, ônibus urbanos e regionais e trens.
Precisamos de tudo isso? Certamente não. Mas um planejamento com modais diversificados e integrados, valorização do pedestre, das calçadas, dos ciclistas para além da monotonia do transporte privado, individualizado e movido a gasolina, seria um bom começo.