Essa semana fui conhecer a Casa do Povo, um centro cultural que se mistura com a história do bairro do Bom Retiro e com o processo de migração dos judeus para São Paulo, principalmente a partir dos anos 30.
Segundo Hugueta Sendacz, a ideia de constituir um centro cultural surgiu em 1937. Em princípio era para a manutenção da cultura judaica laica por meio de atividades artísticas e culturais. Assim, a Casa do Povo abrigava um coral, uma escola, um jornal de um grupo de teatro.
Benjamin Seroussi explica que a Casa do Povo surgiu em 1946, por iniciativa de judeus politicamente engajados e progressistas, como monumento vivo em homenagem e memória dos judeus assassinados na Segunda Guerra Mundial. Não se tratava de um memorial como estocagem de histórias, mas como lugar para acolher iniciativas e realizar atividades, um lugar vazio preenchido pela ação. E nessa perspectiva, a Casa do Povo abrigou a Escola Scholem Aleichem e o Teatro de Arte Israelita Brasileiro (TAIB) que nos anos 60 e 70 acolheu peças e montagens, por exemplo, de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri. Assim, a Casa do Povo era espaço de acolhida de expressões artísticas, de vanguarda pedagógica e teatral e de resistência à ditadura Militar.
Atualmente, o espaço mantem a ideia de circulação de ideias, de acolhida, de ação. Está em fase de restauração.
Ontem, ao chegar na Casa do Povo, na Rua Três Rios, 252 (Metrô Tiradentes), deparei-me, já na escadaria da entrada com o "Nossa Voz", jornal produzido ali mesmo (Ano LXXV, N°1023). Muito texto, muita foto, muita arte gráfica. Ainda na escada uma exposição de livros produzidos por coletivos hospedados no local e sabonetes produzidos ali. Ambos para venda, pagos por PIX, sem grandes controles, sem burocracia. Perguntei ao guarda, segurança, acolhedor, se tinha um café. Sim. Tem um café. Veja ali. Mostrou-me o salão. Tinha um balcão. Uma garrafa de café. Vários potes com café em pó e chás. As xícaras. Entrei. Servi-me de café. Lavei a xícara. Uma moça afinava um piano. Nas proximidades do jardim, um homem consertava um móvel com seu formão. Outra moça sentada olhava a tela do seu computador. Uma mesa larga estava ocupada por três outras pessoas. Subi um andar, ensaio de dança. Outro andar: biblioteca, exposição sobre o TAIB. Terceiro andar, céu aberto, jardim, uma academia de boxe (Boxe autônomo) com ringues e muitos sacos de pancada. Treinos presenciais de segunda à quinta-feira e sábado. Mensalidade? R$150.
Desci. Encontrei outros dois visitantes, moradores da Zona Leste, alunos da Escola de Artes, Ciências e Humanidade. Na saída, encontro Lívia, colega praticante de Tai-Chi-Chuan. Ela faz parte de um coletivo de tradutores e de escritores alocados ali dentro. Apresenta-me o Parquinho Gráfico, espaço voltado para a experimentação gráfica com práticas de edição, design, impressão, silk screen, carimbo, tipografia, xilogravura e mantido por coletivos e designers. De lá vou conhecer o próprio TAIB no subsolo. Em fase de recuperação. Impressionante a viagem no tempo. Como me ocorre muitas vezes, o olhar me desloca no tempo e no espaço. No tempo porque a cada andar, a cada "cômodo", a cada objeto, a cada folheto há um deslocamento para "encontrar-me" com as pessoas que vivenciaram apresentações, lutas, resistências, festas, cursos, naquele lugar. No espaço porque vejo a Casa do Povo e a organização comunitária que deu origem e mantem o lugar e penso em Suzano, minha cidade, nos diversos povos que se encontram nesse município da Região Metropolitana de São Paulo, na mescla de gente de muitos países e de muitos estados, nas diversas construções abandonadas na região central (as fábricas têxteis, as peles Polo Norte e tantas outras) que tem em si muitas histórias e um potencial para tornar-se lugar de acolhida, de iniciativas, de atividades, de bibliotecas, de aulas, de cursos livres. Enfim, lugares preenchidos pela ação.