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Bichos que somem

26 julho 2022 - 08h00 Por Gabriely Machado
Bichos que somem

Não consigo imaginar se em outros tempos pequenos animais domésticos se perdiam com tanta facilidade ou se é a existência das redes sociais e sua divulgação global e instantânea que nos faz perceber que são muitos os que desaparecem...
Lembro que quando criança tínhamos em casa gatos e cachorros que viviam livres pelo quintal, sem esse acesso muito comum ao interior das casas como ocorre agora, eles saiam algumas vezes para a rua e, até podiam demorar um pouco mais para voltar, mas acabavam voltando naturalmente, sem que precisássemos nos preocupar, parece que todos sabiam muito bem o caminho de volta.
Os gatos sempre mais folgados dormiam o dia todo pelos cantos onde o sol aparecia encolhidos como pequenas bolas peludas e, nas casas que possuíam o conforto do fogão de lenha, que crepitava durante todo o dia e se mantinha aquecido com um tronco de lenha mais grosso que permitia que pudesse ter suas brasas reavivadas a qualquer momento, nesses locais também podíamos observar que gatos ali gostavam se alojar nalgum canto próximo e usufruir desse calor aconchegante.
Os cães chegavam no máximo até as portas da casa, podíamos brincar com eles no quintal, mas o acesso era restrito, por melhor tratamento que recebessem, tinham sua vida envolvida com tudo que se relacionava ao movimento no quintal ou de quem passasse pela rua, quando aproveitavam para fazer uma barulheira incrível, para nos alertar ou deixar os mais velhos irritados.
As crianças podiam brincar com eles à vontade, nunca ouvi falar de cães agressivos que pudessem as atacar, assim como eles eram muito semelhantes, todos vira-latas, não havia essa distinção de cães desta ou daquela raça. Os gatos pareciam ser mais nobres, havia os malhados que eram os mais comuns e os especiais que conhecíamos como persas e siameses,
Os imensamente peludos e cheios de pose e aqueles de pelagem cinza que gostavam de desfilar pelas janelas observando tudo com olhos imensos e aparentemente distantes.
Os tempos foram mudando e ter animais de raça virou moda, além disso, saíram do quintal e passaram a conviver dentro de casa, ganharam status e comidas especiais, mas perderam a liberdade de morarem no quintal e de vez em quando pular o muro para dar umas voltas na vizinhança.
Assim perderam o sentido de direção, saem de casa de carro, o máximo que conhecem é o cheiro do caminho da casa ou apartamento até a garagem, conhecem a vizinhança pela observar que fazem da janela, deixaram de marcar seu território urinando por onde passavam e, talvez por isso quando exercem seu direito de passear sozinhos se percam com tanta facilidade, como João e Maria suas pegadas se perdem e não conseguem encontrar o caminho de volta.
Cães e gatos tratados como parte da família, muitas vezes como membros importantes desaparecem quando uma fresta fica aberta no portão, quando uma porta é esquecida aberta e aí, vemos com muita frequência pessoas os procurando e nem sempre os encontrando ou levando muito tempo para recuperá-los, pois, por se tratarem de animais de raça e até valiosos, quando encontrados por terceiros, estes os guardam no intuito de receber recompensa para devolvê-los. As páginas sociais hoje vivem cheias de fotos de bichos que saem e não voltam, o nosso excesso de amor e as comidas fabricadas tirou deles o uso do faro que os norteava no caminho de volta.