Lendo a crônica do professor Suami de Azevedo, fiquei imaginando se algumas coisas são típicas do tempo ou sei lá, talvez da idade...
Assim como ele tenho muitos livros, alguns arrumados nas estantes outros tantos espalhados por todos os locais que entendo ser mais fácil acessar quando necessito.
De uns tempos para cá resolvi olhar para o guarda roupas com um pouco mais de atenção e percebi que algumas peças eu já não fazia uso, mas as mantinha ali para uma possível nova oportunidade e, parece que a pandemia cortou um pouco essas possibilidades de encontros que eram rotineiros, assim algumas delas passaram para outras mãos que certamente farão bom uso.
O mesmo aconteceu com os sapatos e, lá se foram para doação, afinal sempre tem alguém precisando...
Sem ter a oportunidade de olhar pela janela e ver longe o horizonte, pois, resido em casa e meus vizinhos para ocuparem de maneira proveitosa o terreno, construíram sobrados, dessa forma não consigo observar muito o horizonte que se tornou mais próximo. Mesmo assim vejo as nuvens passarem rapidamente, umas mais densas apesar de aparentarem um bom pedaço de algodão doce, que me faz lembrar a infância, quando via surgir aos poucos enrolado num palito uma imensidão branca que saboreava prazerosamente.
Tenho também meus bordados, coisa que aprendi com minha avó e com minha mãe, mas que não levo tão a sério quanto elas, vez por outra me entrego a esse lazer produtivo...
A caixa de costura fica também sempre a mão, afinal um botão sempre fica frouxo e acaba tendo que ser repregado.
Já me desfiz de algumas louças, de panelas e outros utensílios que foram perdendo a utilidade, a casa mais vazia não pede tantas guloseimas.
Entretanto, os livros ainda me surpreendem mesmo lidos e relidos sempre tem alguma coisa que escapou nas leituras anteriores ou agora percebo outro entendimento, isso talvez seja por conta dos tempos que nos faz ver tantas outras possibilidades.
E assim continuam ali nas prateleiras onde com certa constância os mudo de lugar porque retorno a leitura ou pesquiso algum assunto que acredito seja interessante ler novamente.
Dessa maneira, apesar da insistência de algumas pessoas de casa, não consigo me desfazer deles, é como se parte de mim ali está presa, interessada talvez numa mudança de rumo na história ou nalgum fato que não percebi sua importância na primeira leitura.
Com isso aumenta o número deles que voltam para o móvel da cabeceira da minha cama, onde o abajur permanece ligado durante muito tempo nas madrugadas, sejam elas quentes ou mais frias e, nessa agradável companhia me perco nas letras que parecem conversar comigo.
Viajo nas histórias e nas estórias, me envolvo, faço parte do conteúdo, por mais antigo que seja a narração, me vejo ali frequentando os lugares, conversando com as pessoas, olhando com prazer para os locais descritos, me torno parte da narrativa.
Com todo esse apego ainda não consegui liberar um pequeno espaço na estante que continua abarrotada e sempre que olho para eles percebo que muito amor nos envolve, então vou relegando a ideia de me desfazer de qualquer um deles...