A Aldeia Indígena Tupinambá Tekoa M’boiji é a única aldeia oficializada de todo o Alto Tietê. Localizada no município de Mogi das Cruzes, a aldeia existe há 30 anos e abriga 19 famílias, que têm salas de educação, de saúde e plantações na própria região. “Nos tiraram tudo, menos nossas raízes. Estamos brotando novamente”, disse o cacique da aldeia, Luis Angá Morerekoara Lima, em protesto pela valorização indígena.
Ainda segundo o cacique, com o avanço da aldeia, as demandas para a aldeia aumentaram, sendo necessário o auxílio de instituições. Desta forma, o Poder Judiciário Federal de Mogi das Cruzes (Justiça Federal da 3ª Região) estuda maneiras de tornar realidade as solicitações. “Desde o conhecimento desta demanda, o Poder Judiciário Federal de Mogi das Cruzes começou a discutir com eles e com outras instituições para a melhora do saneamento básico, da educação e de outras solicitações. Os próximos passos frisam em resolver a educação, questões previdenciárias, questões territoriais e eleitorais”, comentou o técnico judiciário, Marcos De Marchi.
Desta forma, na sexta-feira (9/10), o arqueólogo, Vladimir Sciarpelletti, e o antropólogo, Evandro Bonfim, estiveram junto do DS em uma visita técnica à aldeia. “O Poder Judiciário nos solicitou a realização de uma visita técnica arqueológica e antropológica com o objetivo de reunir subsídios especializados sobre a ocupação tradicional do território, sua antiguidade e a relação histórica, cultural, social e material da comunidade indígena com a área em disputa, incluindo a investigação e a documentação de possíveis evidências materiais da presença e da ocupação indígena”, disse Vladimir.
O cacique Luis Angá disse ao DS que a ampliação da aldeia torna possível que as famílias indígenas no Alto Tietê possam ser ampliadas. “Eu sou pai de 47 famílias, mas as que moram aqui são somente 19.
Antigamente, chegamos a contar com 25 famílias nesse local, mas, com um lugar pequeno, essas pessoas tiveram que sair daqui. Se conseguirmos um local apropriado, com certeza a quantidade de pessoas na aldeia irá aumentar”, relatou a nossa reportagem. “Nós ficamos cercados, estamos em uma pequena bolha, que já não nos suporta mais”, disse.
“Mogi das Cruzes já foi enorme e os ancestrais relatam que, por volta do século XVII, existiam 700 indígenas morando na cidade. Segundo dados que apurei no IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), só em Mogi das Cruzes, mais de 500 pessoas se declararam indígenas. Com essa ampliação, é possível dar um local digno para todos morarem em harmonia”, reiterou.
A cultura do local é forte e é um dos motivos para a aldeia seguir viva por tantas gerações. “Desde cedo, nossas crianças têm acesso à língua Tupi e Guarani. Nossas aulas contemplam a pré-escola, ensino fundamental e ensino médio, graças à ajuda que a Prefeitura de Mogi das Cruzes e o Estado nos dão. Temos um professor intérprete que, junto dos professores externos, ajuda a transcrever tudo para nossa língua”, disse. Ainda reforçou que a educação é muito importante para que as pessoas possam crescer e saber dos próprios direitos, que muitas vezes, estão garantidos na própria Constituição Federal.
Questionado sobre a rotina, o cacique disse que todos têm uma função. “Hoje mesmo, nós vamos dar aula para nossas crianças, fazer colheitas e, ao final do dia, como sempre, nos reunimos para uma reza em conjunto”, contou. “Vale lembrar que, uma vez ao mês, nós temos consultas médicas, realizadas pela Prefeitura de Mogi das Cruzes. No mês passado, por exemplo, nossas mulheres também fizeram exames de Papanicolau e odontológicos”, relatou.
Ao lado do vice-cacique, Vitor Wera Tupã, o cacique Luis Angá reiterou a importância do respeito à cultura indígena. “Nossas pinturas nos representam: buscar nossos respeitos e proteger nossa mãe, a floresta”, afirmou, quando questionado sobre a importância das pinturas. “Além disso, nunca se deve dirigir com o nome índio, o certo é indígena”, reforçou sobre o respeito à cultura.
Na aldeia também é feito um café específico, por meio da torra de milho. Para eles, esse é o verdadeiro café. “Nós produzimos nosso café de awati – milho.
Esse que deveria ser o café de toda nação brasileira. Essa é a principal moeda da aldeia”, afirmou.
A aldeia indígena fica localizada na Estrada Torao Ikuta, 429, Porteira Preta.
DS visita a única aldeia indígena de todo Alto Tietê - (Foto: Guilherme Cerqueira/DS)