O último Atlas Temático elaborado pelo Observatório das Migrações em São Paulo, da Unicamp, aponta que há 663 estrangeiros vivendo nas cidades do Alto Tietê. O estudo, lançado em abril, é o mais recente parâmetro da situação imigrante no Estado e traduz uma realidade ainda pouco percebida aos olhos da sociedade. Do total de estrangeiros na região, pelo menos 30,1% provém de países da América do Sul, como bolivianos, chilenos, colombianos, paraguaios e peruanos, somando 200 pessoas. Já a nacionalidade haitiana lidera a lista com 99 imigrantes oriundos do mesmo país caribenho.
O levantamento, cedido ao jornal Folha de S.Paulo, detalha a incidência da imigração em cada município paulista. No Alto Tietê, Mogi das Cruzes é a cidade com mais estrangeiros. O estudo contabilizou pelo menos 229 pessoas do exterior vivendo no município mogiano, das quais 20% são japoneses; 10% haitianos e portugueses; E 9,1% chineses. Em Itaquaquecetuba, dos 136 imigrantes, 33,8% são bolivianos; 11% são haitianos e 9,5% são colombianos. Já em Suzano, de acordo com o Atlas Temático, há 132 imigrantes, sendo 26,5% haitianos; 20,4% japoneses e 7,5% chineses e bolivianos.
Suzano abriga a maior parte dos haitianos estabelecidos na região- 35,3% deles estão no município suzanense. A segunda maior parcela se encontra em Mogi, com 23 pessoas, e 15 em Arujá e Itaquá.
Dos bolivianos que hoje estão no Alto Tietê, 51,6% vivem em Itaquá. O Atlas Temático considera que outros 33,7% estão distribuídos entre as cidades de Mogi, Poá e Suzano. Grande parte dos imigrantes desta nacionalidade vem ao Brasil para atuar no comércio e indústria têxtil. Infelizmente, o ofício ainda registra casos de trabalho análogo à escravidão.
A imigração japonesa é uma das mais antigas e conhecidas no Alto Tietê. As tradições e costumes se fazem presentes na região por meio da forte influência da colônia atuante nas cidades. Atualmente, pelo menos metade dos japoneses está em Mogi. Outros 31,3% em Suzano e 4,6% em Arujá, segundo o levantamento do Observatório.
Histórias
A colombiana Elizabeth Colorado Herrera viveu uma das mudanças mais importantes da vida depois de se casar com um brasileiro. Aos 31 anos idade, desembarcou no Brasil para se estabelecer em Suzano, onde construiu família à base do idioma de origem.
Hoje, duas décadas depois, Beth se dedica a lecionar o espanhol e se sente acolhida no país vizinho. Formada em assistência social, a imigrante ainda trabalhou na área por nove anos na Colômbia. Com a chegada do primeiro filho, fruto do casamento com um brasileiro, deixou a bucólica cidade de Pueblo para estabelecer a jovem família em Suzano.
No Brasil, Beth cursou pós-graduação e começou a dar aulas de idioma, por meio de um mestrado em espanhol e literatura na USP. "Fui super acolhida". Para a professora, as diferenças entre os países são pontuais. "Percebi que, na América Latina, somos todos bem parecidos, apesar dos brasileiros serem colonizados por portugueses. A culinária é muito rica”.
Já o haitiano Rony Cadet está em Suzano desde 2014, cerca de um ano depois de chegar ao Brasil. O imigrante passou por embaixadas internacionais até se estabelecer em território brasileiro, onde encontrou oportunidade para uma vida melhor após ver o País de origem ser devastado por um terremoto, em 2010.
Além do desastre, a corrupção política e falta de perspectivas na conjuntura do Haiti contribuem para o êxodo da população. Atualmente, o haitiano conseguiu trazer a esposa e o filho para viver em família na cidade suzanense.
Pelas ruas da cidade e também no transporte público, Rony ganha a vida vendendo doces. Provavelmente quem já o encontrou durante o trabalho não imagina a história por trás do haitiano que, antes de chegar ao Brasil, passou por países como República Dominicana e Equador para conseguir o visto brasileiro. Em novembro de 2013, pisava pela primeira vez na Terra de Santa Cruz.
Dos quase cinco anos que está no Brasil, pelo menos quatro foram em Suzano. Em dezembro de 2016, a esposa e o filho puderam se juntar a Rony. "Quando eu saí do Haiti, meu filho tinha um mês de vida. Lá eu cursava ciência da computação, mas ainda não consegui retomar os estudos por aqui porque tenho as responsabilidades com a família", diz ao pontuar o nascimento recente da segunda criança.
Cadet equilibra as despesas com moradia- que acredita ser exacerbadamente cara no País.
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