Com as agências de emprego de Suzano fechadas por conta da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), muitos desempregados estão indo aos semáforos para tentar sobreviver vendendo balas e produtos para carros.
As dificuldades se multiplicam no cenário atual. As empresas estão demitindo para reduzir gastos e os trabalhadores não conseguem sequer procurar um novo emprego. Os problemas enfrentados com ajudas do governo, como o Coronavoucher – que tem deixado milhões de brasileiros por semanas “em análise” - só agravam a situação.
Retrato
Andando pelas ruas de Suzano, o DS encontrou Gilberto Mauro, 54, um exemplo claro do que milhões de brasileiros vivem atualmente.
Desempregado, ele caminha entre os carros que param no semáforo, que fica sob o Viaduto Leon Feffer, para pedir ajuda aos motoristas. Em uma mão, uma caixa de balas de goma. Na outra, Mauro carrega a maior dificuldade de boa parte dos brasileiros no atual momento de pandemia, com uma placa contendo a frase: “Tenho família e estou sem emprego. Me ajude. R$ 1 uma bala”.
Com um sotaque carioca, ele repete exaustivamente frases ofertando a mercadoria, concluindo cada uma com um “Deus abençoe”. Mais do que as vendas, a fé é o que realmente o sustenta.
“Estou sofrendo muito, mas Deus dá forças para lutar com honestidade e perseverança. Estamos aqui sempre, todos os dias, de 7h30 às 17h, e graças a Deus, tem um povo que ainda é legal. Temos que acreditar que existe gente boa”, conta Mauro.
Ele mora na Vila Amorim com um filho e a esposa, e trabalha no farol há dois meses. A ideia da placa, segundo Mauro, é para que as pessoas possam entender a mensagem, já que ele diz que sofre com problemas na voz.
“Minha voz é um pouco rouca, então se tentasse falar, as pessoas nos carros não conseguiriam ouvir. Mesmo gritando, ela não sai forte. Aí fiz a placa”.
Apesar de se identificar como pintor, Mauro quer trabalhar, e não importa como. “Quando a gente quer trabalhar, não podemos escolher cargo. Não estamos em condições para isso. O povo está precisando de emprego”, diz.
O vendedor diz que se sentiria feliz em receber apenas alimentos, como uma cesta básica todos os meses, o que para ele, seria “pampa” (gíria usada para dizer que “está bom”). Além dele, outros dois colegas trabalham no mesmo semáforo, porque passam pelos mesmos problemas.
“Não conseguimos o Auxílio Emergencial, e estamos aqui passando por isso. Correndo o risco de sermos atropelados ou pegarmos uma doença. Tenho um filho e pago pensão e aluguel. Está difícil”, relata Alexsandro Esteves, 42.
“Eu trabalhava no Shopping, aí fecharam as lojas. Me mandaram embora, e estou na rua vendendo bala”, lamenta Gabriel Araújo, 22.