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José Renato Nalini

Talento não alimenta

12 junho 2025 - 08h00 Por Gabriely Machado
Talento não alimenta


Há exatamente cem anos, em 1925, ao ser entrevistado por um jornal no Rio de Janeiro, Coelho Neto sintetizou as suas lutas de escritor. Dia e noite a escrever, molhando a pena no tinteiro e produzindo suas obras. 
A escrever, sempre a escrever, para sustentar a família e educar os filhos.
Ao ser indagado sobre quantos volumes já havia publicado até então, ele, acanhado e constrangido, após um momento de hesitação respondeu:
- "102!".
O repórter ficou espantado:
- "102? É verdade que, entre novelas e contos, o senhor já escreveu mais de trezentos?"
- "Um pouco mais: 580".
Todo esse magnífico acervo era insuficiente para fazê-lo um pai de família financeiramente tranquilo. Continuava a ser um homem pobre. 
Via-se obrigado a procurar editoras para publicar seus livros e espalhar crônicas e contos pelos jornais, em busca de alguns vinténs.
O repórter indaga, curioso:
- "A casa em que mora é sua?".
- "Não. Habito-a há exatos vinte anos, como inquilino", respondeu Coelho Neto. E lembrou-se do jazigo de família, onde já repousava seu filho Mano:
- "Casa própria, tenho-a no cemitério: a que foi doada a meu filho. Não sou tão pobre assim: tenho pelo menos onde cair morto!" 
Essa frase, ou algo muito parecido, era também repetida por Lygia Fagundes Telles, bi-acadêmica: da Academia Brasileira e da Academia Paulista de Letras. Sempre brincava: - "Sou bi-imortal porque não tenho onde cair morta!".
Consta que foi Olavo Bilac o primeiro a fazer essa blague, que tem um pouco de verdade. 
Quem ganha dinheiro com livro no Brasil? 
Um país que perde milhões de leitores a cada ano, engolidos pelas redes antissociais em que prepondera a piada, o mau gosto, a chulice e a bobagem. 
Enquanto esta Pátria não se educar - e com qualidade e consistência - os talentos continuarão a passar fome, enquanto as imbecilidades prosseguirão em seu trajeto ascensional.